O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Contos da vida real 11: Clínica dos Petróleos e Corpo Diplomático

" 'O Pregão'; vendedora de milho de Luanda"
(Tela de Toia Neuparth)


CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO*

A política não é apenas para ser feita pelos políticos”. Gilberto Freyre.

A libertação da escravidão é uma ilusão.
As madeiras de ébano estão estatuadas, estratificadas, no passeio do prédio passeadas. No seu tabuleiro, a velha Teresa retoca as pinturas dos rebuçados, bolachas, pastilhas elásticas, cigarros. Reajusta o gelo na caixa térmica para que as gasosas magnetizem a clientela. No centro do tabuleiro um bocado de papelão previne: NÃO ACEITO KILAPIS!
A Marta e a Emília tentam kinguilar dólares.
Passa uma ambulância com o dístico: CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO.
A velha Teresa espera que o efeito “dopler” termine e inicia a conversa habitual, interminável.
- Até agora nunca consegui entender porque é que vi a maldade sempre triunfar. E a bondade limitar-se apenas, creio que é isso, a uma mera invenção, para nos tornar submissas, obedientes e temerosas.
A Marta está atenta a um carro que parou. Parece que quer trocar.
Faz-lhe sinal com a mão. O outro renuncia. Engata-se na dica da velha Teresa.
- A abolição da escravatura foi mal feita. A escravatura e o colonialismo ainda não acabaram.
Um esfomeado da democracia incipiente colecciona qualquer coisa nos caixotes do lixo. A velha Teresa usa o seu melhor tom crítico.
- A independência deles veio para andarmos à procura da nossa liberdade nos caixotes do lixo. O que resta da nossa liberdade, está aí!
A Emília estava com cara de taxo. As duas olharam-na interrogativas, como querendo insinuar o anormal de mulher estar calada. A Emília sorriu um pouco, e concordou:
- É isso manas! Somos uma nação de escravas, dirigidas por escravocratas!
A Emília escuda-se na cara de contra-anúncio. A velha Teresa intriga-se:
- É o quê, mana Emília!?
- Porra! Esses gajos são muito feiticeiros! Primeiro enfeitiçaram-me 2.500 dólares falsos, depois mais duzentos; É pá!.. vou na igreja, não se pode estar na rua. Conseguem roubar o dinheiro que temos na carteira; é como se tivessem um aspirador.
A mana Marta já tomou defesas, um anti-feitiço.
- Eu estou a pôr um bocado de carvão e jindungo na minha carteira, para não me aspirarem o meu dinheiro.
A velha Teresa não deixa escapar nada.
- Olhem; olhem; não é a Génia?
A Génia está estacionada, disfarçada entre automóveis. Esfrega, jubila a racha num pretendente. Fazem-se festinhas, cochichos, parece que mais tarde vai fazer horas extras. A velha Teresa chateia-se:
- Então, e o brasileiro? Parece que gosta muito dela. Está sempre a trazer-lhe coisas.
A Marta antecipa-se à Emília, pouco há para esclarecer.
- Oh! Qualquer um lhes serve.
A velha Teresa retoma o rumo dos habituais impropérios.
- Porra! É por isso que as pixas e mais essa merda toda me metem nojo. Ah; é por isso que nunca mais quis homem.
- Eu também não. Desde que o filho da puta do meu marido me deu chapadas na cara, nunca mais quis homem. Assim estou muito bem.
Homens, que vão todos para a puta que os pariu!; – Sentenciou a Marta.
Na rádio do poder ouve-se um governante alardear os seus feitos.
Publicita a inauguração de uma vulgar estrada, que se Deus quiser aguentará uns meses. Depois reconstrói-se e as comissões também. «E o que os colonos não conseguiram fazer em cem anos, nós acabámos de o fazer agora»
- É o ministro militante, triunfante da ainda vanguarda da classe operária e camponesa. – Gozou a Marta.
- Continuam a roubar-nos as terras, os terrenos; até fazem dos passeios armazéns de contentores, e agora parece que são os prédios; já nos tiraram fotografia. – Alertou a velha Teresa
- A nossa África Negra é o paraíso dos aventureiros e dos governantes sem escrúpulos. – Lembrou a Emília.
A Marta e a Emília olham fixamente, longamente para a velha Teresa que se assusta.
- É o quê manas? Não gosto nada que me olhem assim. Até parece que cheiro a catinga, ou tenho peçonha.
- Depois do arrombo que os feiticeiros nos deram, estamos a ficar aflitas com dinheiro. Pois é; como é; o dinheiro que te emprestámos, nada? A tua filha de Portugal, ainda? – Interrogou a mana Emília.
- É manas, estou bem fodida! A minha filha telefonou-me, disse-me que agora não dá, que comprou brutas roupas; é, vai-me enviar rebuçados, e que depois me enviará o dinheiro. – Justificou a velha Teresa.
Dois seguranças aguentam duas portentosas, rebentos de madeiras de ébano com dez anos de idade. A lábia delas é convincente:
- Vá lá; arriámos para dez dólares!
- É pá, não chateiem! Mas vocês não têm família? Não têm vergonha, ainda tão crianças? Deviam estar numa escola ou numa creche! – Aconselhou um segurança.
- Ah! seus burros, parvalhões! – Insultou a que parecia a chefe.
E foram-se frias com as rachinhas quentinhas na noite acalorada. Se não conseguirem rachador, não haverá comida, gasosa, e roupinhas.
A velha Teresa abana a cabeça descontente. Pisa fundo no acelerador da inconsciência nacional.
- Ainda agora nasceram, e já a sofrer assim? Meu Deus!
- Há muitos pedófilos entre nós nacionais; são uma das nossas instituições milenares. – Disse a Marta.
- Esta nossa pedofilia só é denunciada quando feita por estrangeiros! – Exclamou a Emília.
O homem conduz o seu carro agitadamente. Vê-se que está com muita pressa. Só pode ser por causa de um negócio. Vê um mendigo, um esfomeado à frente do carro a pedir esmola. Olha para o relógio e vê que está atrasado. Se perder o negócio perderá muito dinheiro.
Acelera e passa por cima do faminto, deixando-o esmagado, abandonado na via.
A quinze passos à esquerda do prédio está uma criança na porta do supermercado. O segurança enxota-a. Como fazem as moscas, a criança retorna. O segurança afugenta-a e vai e volta, vai e volta. O segurança interroga-a com a cabeça. A resposta é sempre a mesma:
- Tenho fome! Quero pão!
O segurança está cansado, não aguenta mais tanto rodopiar. Grita-lhe:
- Queres pão!? Vem cá!
O desgraçadinho acredita que conseguiu. Aproxima-se confiante e leva duas boas cacetadas nas costas. O segurança repete a pergunta:
- Queres mais pão!?
Um pouco mais à direita um homem que decerto é louco intenta arrancar uma terna árvore. A velha Teresa perguntam-lhe:
- Oiça, faz isso porquê?
- Vou construir aqui um casino. As árvores não me dão dinheiro.
Para chatear ainda mais, surge vendaval. As árvores agitam-se, querem roçar o chão. O lixo voa por todo o lado. Começam a cair os primeiros pingos robustos. Vai ser uma boa chuvada. A velha Teresa aflige-se, refugia-se com a mercadoria dentro do prédio.
- Merda para esta chuva! É quase assim todos os dias. Hoje não vou vender quase nada outra vez.
Eis que surgem novos-ricos. Os auto-eleitos presidente e vice-presidente do prédio. O presidente quer passar, mas o tabuleiro da velha Teresa não deixa. Então o presidente ataca:
- Já disse para acabarem com esta pouca-vergonha. Vão vender para outro lado!
A mana Emília fala bem português. A Marta e a velha Teresa também.
A Emília desfere um contra-ataque.
- Hum!.. mas você comprou o apartamento ou o prédio?
A seguir a comitiva está presente a esposa do presidente. A entrada já tem uma pocinha de água.
- Mas que chatice, que javardice. Vou molhar os meus sapatos e o seu delicado conteúdo.
- Porque é que não fazes como nós? Anda de chinelos! – Solucionou a velha Teresa.
- Eu!?.. Era só o que me faltava! Só usarei chinelos quando for pobre como vocês!
As madeiras de ébano reprovam-na agitando as cabeças. A velha Teresa é a primeira a recobrar-se do desânimo:
- Dantes eram os brancos, agora são os negros que nos escravizam.
Ai!.. manas; afinal lutámos pela nossa independência para quê? É tudo deles! Viva a nossa independência de escravas! Filhos da puta! Puta que os pariu!
Falta o mulato Eros, que desce as escadas triunfal. Com dezoito anos já tem duas filhas de duas adolescentes. Vem com uma negrinha, muito jovenzinha que intoxica as narinas com o cheiro de perfume muito barato. Só pode ser por causa da falta de água. Banhou-se com perfume para esconder o cheiro da catinga. E a Emília resume a vigilância, a contagem do mulherengo:
- Desde o meio da manhã até agora, esse mulato já subiu e desceu com seis negras. É um grande fodilhão. O gajo toma remédios.
E os congressos e os debates extermináveis prosseguem-se. Desdiz-se sempre a mesma coisa. Nada há de novo. Excepto o reino que se afunda, na miséria, na fome. E o dinheiro petrolífero, diamantífero abunda, abundante. Está o dinheiro nos bancos das contas pessoais, muito impessoais, muito secretas.
Tudo está como no Livro do Pragador.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Janeiro de 2008)

sábado, janeiro 19, 2008

Vento

"Vento de Sudoeste"
(Tela de
João Barcelos)

Vento*

O vento soprou Noroeste.
-Mas que peste!
Desarrumou meu cabelo.
Não por falta de zelo
mas ele assim ficará.

Quem sabe o vento volta à Sudeste
e traz os meus pêlos de volta ao lugar?

*Rildo Ferreira*
*(poeta e analista brasileiro; poema inicialmente publicado
aqui)

Novelo de linha

"Sem título"
(Acrílico e tinta sobre papel, de
Franck K- Lundangi, 2006)

Novelo de linha*

No novelo de linha
onde eu encontro a ponta?
Aponta pra mim.
Se no novelo se esconde
a linha não tem fim.

Mas a ponta
quando se encontra
encontra só o começo
de um novelo assim.
A linha, de algodão,
fazendo voltas, enroladinha
é um grande novelo
-uma proeza enfim!

Uma obra de arte
enrolar numa ponta de linha
toda a linha que tem.
E se a linha é grande,
grande será o novelo.
Grande a proeza de alguém.

*Rildo Ferreira*
*(poeta e analista brasileiro; poema inicialmente publicado
aqui)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Aljezur Algarvia de Meus Encantos

Aljezur Algarvia de Meus Encantos*

Quase roteiro de uma viagem, de um Craveirinha Moçambicano e João

I
De súbito,
Perante meu olhar afro
tropical
Surge Aljezur.
Ao longe,
(“Bunhêra” e Rogil)
Terras ancestrais de meus avós
De encantos e desencantos

II
Aljezur minha,
Na poeira do tempo
Conflitos
Cristãos-Mouriscos
Gritos, cavalos relincham.
Espadas desembainhadas, cimitarras,
tinem no entrechoque
por nossa Fé.
A nossa e a dos outros.

III
Aljezur minha,
dos Sarauís – saloios,
sefardim-ladinos,
no auto-da-fé
amaldiçoados, insultados:
“marranos”!

IV
Aljezur minha
no tempo perdida,
Chibatadas, no áfrico – escravo
esquecidas
no cruel pelourinho
das casas senhoriais
arrogantes morgados
de fartos cabedais.
Lampejos da história
no remanso da memória,
hoje, luminosa Aljezur,
de meus encantos.

V
Aljezur minha,
dos moçárabes,
exilados sefardins-judeus
outros judeus convertidos
ou não tanto, cristãos-novos
de alheiras no arco da portada
à inquisição escapando.

VI
Ah, Aljezur minha,
doces sabores
batata-doce actuais
“Caldêrada” de “pêxe”,
Sorriso afável das Marias Franciscas
Moças morenas, trigueiras,
ruivas outras, das nórdicas paragens
ou da Bretanha, maior.

VII
Aljezur, do Saber dos ti-Manéis,
Josés e Joões Fernandes,
Craveirinhas de Sacêra
com vacas na remada
a comer a roçar a mata,
na labuta da lavoura,
por dez tostões na jorna:
“Pórquêra” de vida!”

VIII
Aljezur minha,
na faina da pesca,
esforçados outros, ainda
Desafiando o encrespado
“Mar Português”
cantado
como “Lágrimas de Portugal”
pela Pessoa de Fernando.

IX
E, se
“Valeu a pena?”
“Se a alma não é pequena?”
Perguntem também ao Fernando,
mas o da Ofélia!

Nota: Poema rascunhado algures entre o Além-Tejo e o Algarve a caminho de Lisboa em 25.03.2007. Imagens de arquivo histórico; fotos família Craveirinha de Aljezur, Portugal (1917 e década 1930-40-60). Com fotos de João Craveirinha

*João Craveirinha*
*(Poeta, contista e artista plástico moçambicano; poema inédito)

terça-feira, janeiro 01, 2008

200: Perspectivas culturais pouco animadoras à entrada do 3º ano

"A cultura em Angola"
(Imagem dos
Serviços Culturais da Embaixada de Angola, em Portugal – só não entendo porque falta a província de Cabinda… será que já se separou e não nos avisaram?)

No apontamento 200 e quando entra no seu terceiro ano de plena existência, votos que a cultura melhore em 2008 porque me parece, pelo ano que findou, que ela está um pouco discreta.
De acordo com as visitas aqui efectuadas constato que:
Se no início eram claras e quase únicas as visitas provenientes de Portugal, embora com algumas boas – em termos de quantidade – visitas do Brasil, foi manifesto que ao longo de 2007 as visitas portuguesas, ou provenientes de Portugal, diminuíram drasticamente enquanto as visitas dos brasileiros excedeu as expectativas e são, nesta altura, muito superiores às restantes. E viu-se pelas buscas que muitas das visitas brasileiras tinham uma raiz cultural enquanto as portuguesas eram mais informativas.
Registe-se que, no final de 2007 o Brasil que tinha iniciado o ano com pouco mais de 20% das visitas a este blogue terminou 2007 com 40,94% – correspondente a um total de 6654 visitas nestes dois últimos anos – à frente de Portugal que diminuiu dos cerca de 62% para 40,63% (6604 visitas totais).
Nas posições secundárias surpreende o terceiro lugar dos EUA – não esquecer que este blogue é claramente pela cultura lusófona –, com 387 visitas e 2,38%, à frente de Angola, que não ultrapassa os 370 e 2,28%, e de França com 328, correspondendo a 2,02% das visitas totais.
Além de Angola, registe-se a presença de visitas de Moçambique com 213 visitas (1,31%), Cabo Verde (26 visitas ou 0,16%), de Macau (12 ou 0,07%), da Guiné-Bissau (11 ou 0,07%) e de São Tomé e Príncipe (5 visitas ou 0,03%). Infelizmente não há registos de Timor-Leste porque já me apercebi que este país está agregado(?!?!?!?!) à Austrália (basta aceder a biscas através do “eXTReMe Tracking”).
E registe-se que, em qualquer dos três países que se seguem aos dois colossos lusófonos e da grande maioria dos cerca de 80 países – com mais de uma visita (até agora tive o privilégio de ser visitado por 98 países e 5 regiões) – o acesso ao blogue deveu-se a uma busca cultural e não política ou social ou meramente visual (não esquecer que além de contos e poemas – estes só lusófonos – há também um acervo artístico que, embora predominantemente lusófono, engloba também de outras paragens e sensibilidades).
Já agora deixo aqui os 15 países com mais visitas ao “Malambas”: Brasil, Portugal, EUA, Angola, França, Reino Unido, Moçambique, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Canadá, Suíça, Quénia e Argentina.
Porque a cultura continua a não ser considerada, pelo menos na maioria dos Países lusófonos, como um dos principais veículos para o desenvolvimento desses Países e dos seus Povos – basta ver como Portugal está a tratar de um assunto sério como é o Acordo Ortográfico (não se discute se é bom ou não, discute-se é a não-discussão patrocinada pelos académicos e pelos sucessivos Governos) – é natural que fique incrédulo quanto ao seu pleno desenvolvimento.
Bom Ano cheio de cultura a todos os internautas e bloguistas e a todos quanto visitam este blogue.
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segunda-feira, dezembro 24, 2007

Zimbabué - A Luz de Natal na África

ZIMBABWE – A LUZ DE NATAL NA ÁFRICA*

Olhai, senhor ao povo Africano,
Semeando nesta Noite de Natal,
A caridade e a benevolência,
Preservando a vida e suas famílias,

Distanciando a fome e a sede,
Dos grandes massacres econômicos,
Resguardando sob a tua luz celestial,
Os filhos da mãe África.

Assegure aos teus filhos zimbabuenses,
Que fogem dos desastres econômicos,
Imigrantes desprotegidos sem labor,
Neste Natal, alivie com tua misericórdia,

Nossos irmãos zimbabuenses merecem,
A tua acolhida no seio da mãe pátria,
Com acesso e garantia de uma vida feliz,
Fortaleça! O Senhor Deus feito menino,

O manto sagrado em seu povo africano,
Não deixai os homens, mulheres e crianças,
Nesta gloriosa e louvável Noite de Natal,
No desespero de uma guerra econômica.

Veneras os frágeis zimbabuenses queridos,
Vítimas dos fracassos e ganâncias materiais,
Celebras na mente daquele faraó, a caridade,
Enfeitando o governo num estábulo fraterno.

Olhai senhor ao povo Africano!
Derramai no Zimbábue a paz,
Nesta Noite de Natal é Feliz,
E será Feliz pela compaixão divina,
Reluzindo sem cessar novas esperanças.

FELIZ NATAL

*Erasmo Shallkytton*
*(poeta e contista brasileiro; heterónimo de Erasmo José Lopes Costa; publicado inicialmente no Pululu e aqui)

domingo, dezembro 23, 2007

Natal



Natal*

Já não sei dizer Natal como sabia,
quando meu Natal, em minha aldeia,
era um presépio de musgo e de areia
e um menino adorando o Deus menino.

A família inteira, sentada ao borralho,
fazendo horas para a missa do galo
nessa noite fria cujo fogo nos aquecia
e nos dava alento para o ano inteiro.

Vou reaprender a dizer Natal, este Natal,
para que possa voltar a ser
alma de pássaro criança,
nestas memórias de infância.

Para que Deus me dê
nova estrela de Belém
que nos leve ao mais além.

Mas serão precisos muitos desses dias
para que, mais uma vez, possa nascer,
em figura humana, o meu Messias.

*José Adelino Maltez*
*(politólogo, ensaísta e poeta português; do livro de poesia“
Sphera, Spera, Sperança”)