O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Bom 2009 no 4º ano de existência

(Luanda despede-se de 2009 no Largo da Independência; foto Sapo.ao/Foto@ANGOP/ Lucas Neto)

O Malambas, o seu autor, e porque não, todos os que aqui têm deixado os seus textos e comentários, desejam a todos os leitores deste blogue que quer ser cultural e defensor da Lusofonia, enquanto veículo de expressão e de união, votos de Bom Ano 2009 e que este 4º ano de existência que entra com o Ano Novo seja um pouco mais profícuo que o que acaba.

Bom Ano de 2009, cheio de muita cultura, muita poesia, muitos textos e acima de tudo livros mais baratos.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Resposta ao Mestre José Craveirinha

Imagem reflectida do eu
(Tela do angolano
Thó Simões)

Resposta ao Mestre José Craveirinha*

Sabe Mestre…
Hoje os peidas gordas
Já não tem cor nem raça
E no entanto a táctica de por K.O.
Essa espécie com um punch
Ao primeiro round
Aumentou consideravelmente
E garanto-te também mestre
Que já existem mais peidas…
Os peidas magras
E os peidas minguadas
De tanta ignorância instalada
Já se confundem
E fundem,
Joe Louis
Com Max Schmelling
E os Skin Head’s, Neonazis emprestados,
Apregoando nacionalismos exacerbados
Fazem vendettas urbanas
Organizando linchamentos surpresa de negros e gays
E os tribunais de tão democráticos
Libertam-nos sob caução ou já com pena suspensa
E no final ficamos todos a perder,
A perder no evoluir
Da regressão, alguma humanidade
E ficamos sem um pingo de vergonha!

*Delmar Maia Gonçalves*
*(poeta moçambicano; poema cedido ao Malambas pelo autor; Lisboa, 10/09/2007)

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Dia Mundial na Luta contra o SIDA


SIDA*

Somente
......uma dor enorme
Inimaginável
......e desmesurada
Dantesca
......e incompreensível
Ainda anda e persiste
......porque há para quem a Prevenção é ininteligível!

Não façamos de um Dia, um só Dia, mas o primeiro de Todos os Dias!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(o meu contributo para o Dia Mundial do Sida)

terça-feira, novembro 04, 2008

Resistência

"Sem Título"
(Foto “Tonspi;
daqui)

Resistência*

Do Negage à Portela
Pérola Quicongo à beira Tejo
Bairro da lata de Areeiro
Musseque dos espoliados em Lisboa

Negra sozinha na noite
Embrenhada no escuro dos escorraçados
Avenida abaixo, calçada arriba
Olhos tristes, paisagem do desconforto

Como quem persegue a luz
Borboleta africana, perseverante
Paciente e desesperada, luta, desarmada
Na garganta um nó
Mas, ainda assim, sorri…
Mostra alvos os olhos
E os dentes…
Da boca carnuda, belíssima…
Negra esbelta, triste
E contente
Só porque está viva
E seduz…

Que linda que ela vai
Anda prenha a negra do Congo
Veio de tão longe parir em Lisboa
Um filho da noite no musseque do Areeiro…
.
*Luís Urgais*
*(poeta português; da obra “Trinta e três poemas inteiros” cedido à Casa de Angola)

terça-feira, setembro 30, 2008

Névoas

"Quitandeiras"“
(Foto da Etnografia angolana;
daqui)

Névoas*

Vão-se os gorjeios em dias
vazios de sons.
Sobre estas calçadas
frias de granito
não há nada que seja
tempo
som
vento
cheiro bom.

Tudo flui! Tudo é nada!
Só a voz longe-longe das quitandeiras
do Lobito
ressoam ao vento-pregão
percorrendo Caponte e Compão:
-Xi fèrreraaa, mariquitaaa...
enchendo o ar da saudade
de tempo-peixe
de tempo-cheiro
condensado em novelos de cacimbo,
névoa, nada e mais nada.

Quitandeiras – vendedouras de peixe ou fruta.
Cacimbo – nevoeiro, tempo da estação seca.


*Namibiano Ferreira*
*(Poeta angolano; gentilmente cedido pelo
autor)

Quitandeira

"Mulheres com farinha de trigo"
(Uma tela a óleo, de Lívio de Morais, representando quitandeiras;
daqui)

Quitandeira*

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

*Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)

quarta-feira, agosto 27, 2008

Picada de marimbondo

"Elefante solitário"
(Foto de autor angolano desconhecido; retirada da Net;
que o marimbondo não o apoquente...)

Picada de marimbondo*

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo
foi branco que inventou...

*Ernesto Lara Filho*
*( poeta angolano – poesia publicada na Antologia de poesia da Casa dos Estudantes do Império - Angola e S. Tomé e Príncipe; retirado daqui)