O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Pôr-do-sol

Pôr-do-Sol na Ilha de Luanda, Angola

(Foto de Elcalmeida, Maio 2009)


Pôr-do-sol*


Fantasmas de gás

Vermelho púrpura

Movendo-se lentamente

Entre a selva

De cimento armado


Talvez fantasias

De pôr-do-sol

Se perdendo

Na encruzilhada

Do dia e da noite

Apelando a um anoitecer

De afazeres vadios


*Filipe Zau*

*(poeta e investigador angolano; poema do livro “Encanto do mar que eu canto”)

O belo

Pretty Girl

(Tela de Irene Sheri, pintora ucraniana)


O belo*


O belo

não será


o elo

num dos pontos

do círculo


signo

de divino

poder


ou


o ritmo

das palavras


amalgamadas

no ser


*António Gonçalves*

*(poeta angolano; poema de 3.11.1993, retirado da “Antologia Poética: Buscando o Homem”)

terça-feira, janeiro 05, 2010

Bom Ano de 2010

"Flamingo, um símbolo cultural da cidade do Lobito; à entrada da Caponte"

Com votos que o Ano ora entrado seja, no mínimo, tão bom como o que findou - nos tempos que correm começa a ser um optimismo demasiado elevado querer melhor - o Malambas, nesta altura que entra no seu sexto ano de vida, deseja muita cultura e muito boa escrita portuguesa para 2010!

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Água

"Sede D’ Alma"
(Tela de Naná Almeida; da exposição de artistas
angolanos em Lisboa, “Arte da Paz III”, Abril de 2009)

Água*

Água!

abriu a torneira
nem um fio

foi ao riacho
sem uma gota

abriu um poço
nem um lençol

olhou p’ro céu
além despossuído

fechou-se em si
bem desidratado

Ááááguaaaaa…
Ááááguaaaaa…aaa…aa…a…
Nesse dia o homem morreu!

*Roderick Nehone*
*(pseudónimo de Frederico Santos e Silva Cardoso; poema datado de 26.5.1983 e incluído no livro “Génese” ,galardoado, em 1996, com o prémio António Jacinto)

segunda-feira, novembro 30, 2009

Regressei aos teus braços

"Noiva Rica Muíla"
(Tela de Toia Neuparth)


Regressei aos teus braços*

Oh querida terra mãe!
A tristeza podes apagar.
Regressei aos teus braços,
que provam a força dos nossos laços
aos homens que os tentaram quebrar.
Na companhia de Deus te revi
e só Ele sabe como te senti.
Ao chegar, logo estendeste a mão.
Aí começou a minha emoção,
que se apoderou de mim
entrelaçada no teu calor sem fim.
Fui até à Huíla.
A sua vila visitei.
Aí, senti a sua gente tranquila,
onde me reencontrei.
Os espíritos antepassados me falaram
porque a minha alma encontraram.
Com deus os revi assim,
para os recordar no tempo sem fim!

*Jorge Rodrigues de Caluquembe*
*(Geógrafo, ensaísta e romancista angolano; poema extraído do romance «Chicoronho» apresentado a 27 de Novembro de 2009, na Casa de Angola, Lisboa)

terça-feira, outubro 20, 2009

Ó África Pátria Do Mundo

"Dibujo"
(Desenho de João Craveirinha, Brasília, 2009)


Ó África Pátria Do Mundo*

Ó África Pátria do Mundo
Enquanto te espreguiças
Numa letargia sem fim
O Mundo lá fora implacável
Prossegue
Na senda auto-destrutiva
Do Planeta e de Ti

Ó África Pátria do Mundo
Teus filhos no poder
O que fazem então?!
Aconchegados nos sofás dos Mercedes
Com whisky e televisão!?
Importados, longe do sertão
(Made in Germany, UK e Japão)
Enquanto seus súbditos minguam
Sem um tostão
Nas sobras dos donativos
Fora de prazo
Sobrevivem
Nas lixeiras do egoísmo
Sem chegarem a viver
Um dia sequer
Circulando como zombies
No supérfluo do luxo no entulho

Ó África Pátria do Mundo
Antigos guerrilheiros comandantes
Combatentes da outra Liberdade
Esquecida democraticamente
Em nome da modernidade
Globalizada nas contas bancárias
E nas propinas recebidas
A troco da penhora do País.

Ó África Pátria do Mundo
Reage
E diz-me que é só um pesadelo
Que amanhã é outro dia
E tu renovada surgirás
Enfeitando tuas crianças
De flores, pão, amor
Livros e solidariedade
“Na mesa da fraternidade”
Como um teu descendente
Na América disse,
Também um dia
Que tinha um sonho!

Ó África Pátria do Mundo


*João Craveirinha*
*(Poeta, contista e artista plástico moçambicano; feito em Olisipo, 29 Outubro 2008 / Quarta-feira, inicialmente publicado no “
Recanto das Letras” e cedido pelo autor)

terça-feira, setembro 01, 2009

Presença

"Mulher Bosquimane e filho"
(Pintura de Toia Neuparth; descaradamente ximunada
daqui)

Presença*

E apesar de tudo
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
Filha eterna de quanta rebeldia
Me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra,
puro e incerto!

– A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul…
A do dendém
nascendo dos braços das palmeiras…
A do Sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas…
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas…

Sim! Ainda sou a mesma…
– A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundo s e dormentes
(Rua 11… Rua 11…9
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…

Sem dores nem alegrias
de tronco nu e corpo musculoso
a raça escreve a prumo,
a força destes dias…

E eu, revendo ainda
e sempre, nela,
aquela,
longa história inconsequente…

Terra!
Minha, eternamente!
Terra das acácias
dos dongos,
dos cólios baloiçando
mansamente… mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto
ao aceno do teu Povo!...

*Alda Lara*
*(poetisa angolana; poema publicado no Jornal de Benguela e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)