Segunda-feira, Abril 28, 2008

Quem sou?

"Landscape"
(Tela de Paulo Nascimento, 2007;
daqui)

Quem sou?*

Quem sou
e para onde vou,
o que faço
e onde estou?
Não o sei.
Só sei que fazer nada sei,
e para onde ir eu devo.

Assim o afirmava o poeta,
e também o digo eu,
que não sou um trovador
e muito menos um bardo pateta.
Somente um aturdido
que procura o rumo,
um caminho,
uma passagem
que diga,
que aponte
para onde vou.

Se um pária não o sou,
nem marginal ainda estou;
se errando no espaço,
o meu carácter ausculta;
serei eu um amordaçado,
um desbandeirado,
um naufragado?

Não!
Isto não é verdade!
Sei o que quero,
como ir,
como fazer,
e, principalmente,
sei onde ainda estou!

Então se sei o que quero,
se sei para onde hei-de ir,
eu vou,
então porque estou inquirir
quem eu sou?

O que dúvidas desacertadas
e imateriais me provoca,
se um organismo vivo eu sou.
Umas vezes desabusado,
sempre que me deixa o ensejo;
outras e não poucas, andante,
sem nunca ir ao sabor da inanidade;
mas sempre, sempre
um ser vivo e pensante!

Sou um ser que garatuja
poemários cantantes do seu País
e do Lobito,
a sua maravilhosa cidade;
malambas e mukandas desconexas,
ensaios que ninguém evoca,
escritos sociais ou políticos
que passam e se presumem
por trilhos e caminhos esconsos,
estreitos,
ou sinuosos
que desconhecido algum pisa
ou navega.

Por isso,
e se quem sou eu sei,
porque deixo a incerteza
trovejar o coração
e a mente,
ribombar nos olhos
e no inconsciente,
os dedos tremer
e os lábios ciciar?

Ou será que…
Quem eu sou
e para onde vou,
o que faço
e onde estou,
nitidamente não o saberei.
Só sei que tudo quero fazer
e parece não saber onde estar;
no espelho a chipala,
que dormente antevejo,
pergunta,
queixita,
discute,
para onde ir eu deverei,
de uma forma positiva
e livre,
a vida trautear
quem deveras eu sou!

*Lobitino Almeida N’gola*
*(Publicado primeiramente n' O melhor da Web)
(feito na Galé em 26/Abr/2008)

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Dia Internacional do Livro e do Direito de Autores: Intemporal

"Endless"

(Magnífica foto de Biliana Rakocevic)

Intemporal*

Desperta altaneira, seduzindo o beija-flor,
Flor de laranjeira tuas pétalas compõem,
Reminiscência a sombra do esplendor,
Vertentes de emoções, em aromas o ar sobrepõem.

Empresta-me a luz do teu olhar por um instante
Para que possa ver a magia do luar enamorada,
Deixei confinado em minh alma, desejo vacilante,
Minhas noites têm sido de quimera entrelaçada.

Intemporal, palavras voam junto ao vento,
Nas asas das letras triste alento,
Páginas de um romance amarelado pelo tempo.

Sonetos pintados aos sons de lágrimas
Adorno na face, cálido ninho,
Singela gota que cai, sobre o pergaminho.

*Águida Hettwer*
*(poetisa
brasileira; poema retirado daqui, 2007)

Quarta-feira, Março 19, 2008

Paladar

"Tele (Come)"
(Acrílico sobre tela de
Tchalê Figueira, 2004)

Paladar*

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca

*Nikki Menezes*
*(poetisa e jornalista angolana; pseudónimo de Eunice Carla M. de Menezes; poema do livro “Entre a sombra e o corpo”, 2008)

Sexta-feira, Março 07, 2008

Meu Filho

"Les Grandes Constructions"
(Óleo sobre tela,
Vieira da Silva, 1956)

MEU FILHO*

Meu filho!
Quando ouvires os políticos guarda silêncio
Porque quando se cansarem serás escutado
No cerro da noite não temas as sombras das árvores
Contraria-te, congratula-te pelo luar oferecido
Porque nos tempos dos temporais que decorrem
Só nos resta essa sublime dádiva divina
E quando vires um esfomeado arrastar-te no teu caminho
Nunca o desprezes! Ele indica o caminho da espera
Aos que desviaram maliciosamente os caudais das riquezas ilícitas
Para a democracia das contas secretas da Suiça

No dia-a-dia passarinheiros imitarão o canto de sereia das promessas
Repetirão sem exaustão sempre o prometido
E nas iguais odes e sonatas escutadas por todo o lado
Perdurarão sempiternos trovadores místicos
E jograis que não serão mais escutados
Na tormenta das cidades não absorvas as multidões
Afasta-te, observa-as
Verás um universo circense, muita palhaçada

Nas muitas horas vadias não te dás conta
Do tempo que te resta, que te falta para viveres
Irremediavelmente já te passaram muitos anos
Na máquina do teu tempo
Despertas porque já não tens mais horas vagas
Na recuperação do tempo perdido
Conheces muitas pessoas mas, nunca conhecerás nenhuma
Se não conheceres profundamente uma delas
E quando finalmente só e abandonado
Relembra-te que os teus pais
No silêncio tumbal aguardam a tua companhia
Estão, estarão sempre contigo

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; original de Março de 2008)

Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Incerteza

"o caminho parou longe..."
(Desenho de João Azevedo e Silva)


Incerteza*
(Angola ausente)


Sinto
no ar
no silêncio
no ruído
na luz
e na escuridão
auréolas
do teu corpo
mensagens
de tua alma.

Quero
prendê-las
tocá-las
absorvê-las.

Tento
juntá-las
erguê-las
formar teu ser
palpável.

Em vão…

Persisto
pois
rasgando
o espaço
e o tempo
buscando
na comunicação
de nós dois
a certeza de que existo.

*João de Azevedo e Silva*
(poesia de Angola; da obra Angola: Quotidiano I)

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Fala da rainha de regresso ao Kimbo

"Tempestade no deserto do Namibe"
(O deserto da infância de Ruy de Carvalho; foto de
Saiago)

Fala da rainha de regresso ao Kimbo*

O capitão chegou
viu e venceu.
É a sua força
de matar-me os homens.
Minha porém, maior,
é a ciência
de entender os astros.
à mão que fere e mata
oponho uma colheita de segredos.
A terra é minha
e dela me entronizo.
às gerações delego
a reconquista.
O tempo que me serve
é de outra cor
e o sol decidirá
a cor do mando.
Irmãos ouvi-me bem
eu sou rainha.
Quem vos governa os corpos
saberá
das outras heranças
para que me guardo.

De que futuro pode haver temor
para quem tanto acumula de passado?


*Ruy Duarte de Carvalho*
*(angolano; poema da obra “Memória de tanta guerra (Antologia Poética)”, 1992, edições Vega;
daqui)

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Contos da vida real 12: Clínica dos Petróleos e Corpo Diplomático

" 'O Pregão'; vendedora de milho de Luanda"
(Tela de Toia Neuparth)


CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO*

A política não é apenas para ser feita pelos políticos”. Gilberto Freyre.

A libertação da escravidão é uma ilusão.
As madeiras de ébano estão estatuadas, estratificadas, no passeio do prédio passeadas. No seu tabuleiro, a velha Teresa retoca as pinturas dos rebuçados, bolachas, pastilhas elásticas, cigarros. Reajusta o gelo na caixa térmica para que as gasosas magnetizem a clientela. No centro do tabuleiro um bocado de papelão previne: NÃO ACEITO KILAPIS!
A Marta e a Emília tentam kinguilar dólares.
Passa uma ambulância com o dístico: CLÍNICA DOS PETRÓLEOS E CORPO DIPLOMÁTICO.
A velha Teresa espera que o efeito “dopler” termine e inicia a conversa habitual, interminável.
- Até agora nunca consegui entender porque é que vi a maldade sempre triunfar. E a bondade limitar-se apenas, creio que é isso, a uma mera invenção, para nos tornar submissas, obedientes e temerosas.
A Marta está atenta a um carro que parou. Parece que quer trocar.
Faz-lhe sinal com a mão. O outro renuncia. Engata-se na dica da velha Teresa.
- A abolição da escravatura foi mal feita. A escravatura e o colonialismo ainda não acabaram.
Um esfomeado da democracia incipiente colecciona qualquer coisa nos caixotes do lixo. A velha Teresa usa o seu melhor tom crítico.
- A independência deles veio para andarmos à procura da nossa liberdade nos caixotes do lixo. O que resta da nossa liberdade, está aí!
A Emília estava com cara de taxo. As duas olharam-na interrogativas, como querendo insinuar o anormal de mulher estar calada. A Emília sorriu um pouco, e concordou:
- É isso manas! Somos uma nação de escravas, dirigidas por escravocratas!
A Emília escuda-se na cara de contra-anúncio. A velha Teresa intriga-se:
- É o quê, mana Emília!?
- Porra! Esses gajos são muito feiticeiros! Primeiro enfeitiçaram-me 2.500 dólares falsos, depois mais duzentos; É pá!.. vou na igreja, não se pode estar na rua. Conseguem roubar o dinheiro que temos na carteira; é como se tivessem um aspirador.
A mana Marta já tomou defesas, um anti-feitiço.
- Eu estou a pôr um bocado de carvão e jindungo na minha carteira, para não me aspirarem o meu dinheiro.
A velha Teresa não deixa escapar nada.
- Olhem; olhem; não é a Génia?
A Génia está estacionada, disfarçada entre automóveis. Esfrega, jubila a racha num pretendente. Fazem-se festinhas, cochichos, parece que mais tarde vai fazer horas extras. A velha Teresa chateia-se:
- Então, e o brasileiro? Parece que gosta muito dela. Está sempre a trazer-lhe coisas.
A Marta antecipa-se à Emília, pouco há para esclarecer.
- Oh! Qualquer um lhes serve.
A velha Teresa retoma o rumo dos habituais impropérios.
- Porra! É por isso que as pixas e mais essa merda toda me metem nojo. Ah; é por isso que nunca mais quis homem.
- Eu também não. Desde que o filho da puta do meu marido me deu chapadas na cara, nunca mais quis homem. Assim estou muito bem.
Homens, que vão todos para a puta que os pariu!; – Sentenciou a Marta.
Na rádio do poder ouve-se um governante alardear os seus feitos.
Publicita a inauguração de uma vulgar estrada, que se Deus quiser aguentará uns meses. Depois reconstrói-se e as comissões também. «E o que os colonos não conseguiram fazer em cem anos, nós acabámos de o fazer agora»
- É o ministro militante, triunfante da ainda vanguarda da classe operária e camponesa. – Gozou a Marta.
- Continuam a roubar-nos as terras, os terrenos; até fazem dos passeios armazéns de contentores, e agora parece que são os prédios; já nos tiraram fotografia. – Alertou a velha Teresa
- A nossa África Negra é o paraíso dos aventureiros e dos governantes sem escrúpulos. – Lembrou a Emília.
A Marta e a Emília olham fixamente, longamente para a velha Teresa que se assusta.
- É o quê manas? Não gosto nada que me olhem assim. Até parece que cheiro a catinga, ou tenho peçonha.
- Depois do arrombo que os feiticeiros nos deram, estamos a ficar aflitas com dinheiro. Pois é; como é; o dinheiro que te emprestámos, nada? A tua filha de Portugal, ainda? – Interrogou a mana Emília.
- É manas, estou bem fodida! A minha filha telefonou-me, disse-me que agora não dá, que comprou brutas roupas; é, vai-me enviar rebuçados, e que depois me enviará o dinheiro. – Justificou a velha Teresa.
Dois seguranças aguentam duas portentosas, rebentos de madeiras de ébano com dez anos de idade. A lábia delas é convincente:
- Vá lá; arriámos para dez dólares!
- É pá, não chateiem! Mas vocês não têm família? Não têm vergonha, ainda tão crianças? Deviam estar numa escola ou numa creche! – Aconselhou um segurança.
- Ah! seus burros, parvalhões! – Insultou a que parecia a chefe.
E foram-se frias com as rachinhas quentinhas na noite acalorada. Se não conseguirem rachador, não haverá comida, gasosa, e roupinhas.
A velha Teresa abana a cabeça descontente. Pisa fundo no acelerador da inconsciência nacional.
- Ainda agora nasceram, e já a sofrer assim? Meu Deus!
- Há muitos pedófilos entre nós nacionais; são uma das nossas instituições milenares. – Disse a Marta.
- Esta nossa pedofilia só é denunciada quando feita por estrangeiros! – Exclamou a Emília.
O homem conduz o seu carro agitadamente. Vê-se que está com muita pressa. Só pode ser por causa de um negócio. Vê um mendigo, um esfomeado à frente do carro a pedir esmola. Olha para o relógio e vê que está atrasado. Se perder o negócio perderá muito dinheiro.
Acelera e passa por cima do faminto, deixando-o esmagado, abandonado na via.
A quinze passos à esquerda do prédio está uma criança na porta do supermercado. O segurança enxota-a. Como fazem as moscas, a criança retorna. O segurança afugenta-a e vai e volta, vai e volta. O segurança interroga-a com a cabeça. A resposta é sempre a mesma:
- Tenho fome! Quero pão!
O segurança está cansado, não aguenta mais tanto rodopiar. Grita-lhe:
- Queres pão!? Vem cá!
O desgraçadinho acredita que conseguiu. Aproxima-se confiante e leva duas boas cacetadas nas costas. O segurança repete a pergunta:
- Queres mais pão!?
Um pouco mais à direita um homem que decerto é louco intenta arrancar uma terna árvore. A velha Teresa perguntam-lhe:
- Oiça, faz isso porquê?
- Vou construir aqui um casino. As árvores não me dão dinheiro.
Para chatear ainda mais, surge vendaval. As árvores agitam-se, querem roçar o chão. O lixo voa por todo o lado. Começam a cair os primeiros pingos robustos. Vai ser uma boa chuvada. A velha Teresa aflige-se, refugia-se com a mercadoria dentro do prédio.
- Merda para esta chuva! É quase assim todos os dias. Hoje não vou vender quase nada outra vez.
Eis que surgem novos-ricos. Os auto-eleitos presidente e vice-presidente do prédio. O presidente quer passar, mas o tabuleiro da velha Teresa não deixa. Então o presidente ataca:
- Já disse para acabarem com esta pouca-vergonha. Vão vender para outro lado!
A mana Emília fala bem português. A Marta e a velha Teresa também.
A Emília desfere um contra-ataque.
- Hum!.. mas você comprou o apartamento ou o prédio?
A seguir a comitiva está presente a esposa do presidente. A entrada já tem uma pocinha de água.
- Mas que chatice, que javardice. Vou molhar os meus sapatos e o seu delicado conteúdo.
- Porque é que não fazes como nós? Anda de chinelos! – Solucionou a velha Teresa.
- Eu!?.. Era só o que me faltava! Só usarei chinelos quando for pobre como vocês!
As madeiras de ébano reprovam-na agitando as cabeças. A velha Teresa é a primeira a recobrar-se do desânimo:
- Dantes eram os brancos, agora são os negros que nos escravizam.
Ai!.. manas; afinal lutámos pela nossa independência para quê? É tudo deles! Viva a nossa independência de escravas! Filhos da puta! Puta que os pariu!
Falta o mulato Eros, que desce as escadas triunfal. Com dezoito anos já tem duas filhas de duas adolescentes. Vem com uma negrinha, muito jovenzinha que intoxica as narinas com o cheiro de perfume muito barato. Só pode ser por causa da falta de água. Banhou-se com perfume para esconder o cheiro da catinga. E a Emília resume a vigilância, a contagem do mulherengo:
- Desde o meio da manhã até agora, esse mulato já subiu e desceu com seis negras. É um grande fodilhão. O gajo toma remédios.
E os congressos e os debates extermináveis prosseguem-se. Desdiz-se sempre a mesma coisa. Nada há de novo. Excepto o reino que se afunda, na miséria, na fome. E o dinheiro petrolífero, diamantífero abunda, abundante. Está o dinheiro nos bancos das contas pessoais, muito impessoais, muito secretas.
Tudo está como no Livro do Pragador.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Janeiro de 2008)