segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Conto santomense 1 “A Tartaruga adivinhadora”


"a tartaruga e o imperador"
(desenho de Neves e Sousa)
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A tartaruga adivinhadora*
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Chegando uma ocasião, a Tartaruga que costumava a andar sempre no Palácio, disse garantir que adivinhava qualquer sonho do Imperador, especialmente o que ele tinha sonhado ontem e que ele era capaz de adivinhar o que era o sonho.
Uma vez, o senhor Imperador levantou-se de manhã muito cedinho, mandou chamar o Tartaruga e disse assim, p’ra ele:
– Ó meu amigo Tartaruga! Você disse-me que qualquer pensamento que eu tenho de noite, tu és capaz de dizer o que é! Você é capaz de dizer o que é que foi? Tu és capaz de dizer o que ontem sonhei no meu sonho? Vamos lá a ver se sabe o que é! Anda! Agora, diga-me lá!...
O Tartaruga, muito esperto, com o “casco tchibi-tchibi”, (muito inteligente) por sua vez disse assim:
– Bom senhor Imperador dá-me licença que vá para minha casa, de maneira a ver se sou capaz de dizer o que é…
O senhor Imperador disse que sim e o Tartaruga foi para casa por muitos dias e nunca mais aparecia, sempre a estudar como é que vai saber o que o senhor Imperador sonhou na semana passada, na sua cama. Meteu-se pelo mato, arranjou penas de muitos pássaros, colocou-as no corpo a fingir que era pássaro, voltou para o Palácio e começou a tremer:
– Hum… Hum… Hum…
Depois, a senhora Rainha, muito admirada disse:
– Olha este bicho! Se o Tartaruga cá estivesse, era muito capaz de dizer ao senhor Imperador que pássaro é. Ele anda sempre no mato, é capaz de conhecer todos os pássaros…
De maneira, que o senhor Imperador, disse assim:
– Olha; o Tartaruga é um bicho desgraçado. Ele disse-me que o meu sonho ele era capaz de dizer, eu sonhei que era uma bala de izaquente [fruto de São Tomé] mas ele não há maneira de adivinhar. Há uma semana que ele saiu p’ra estudar o assunto e nunca mais apareceu com bala de izaquente.
O tartaruga ouviu esta conversa e fugiu imediatamente sem ninguém saber que ele estava a fingir de pássaro, só para saber o sonho que o Imperador sonhou.
Nessa tarde o Tartaruga apareceu no Palácio e trazia uma bala de izaquente... Vinha a rir, muito satisfeito e quando viu o senhor Imperador, gritou assim:
– Ó senhor Imperador! Cá estou eu outra vez! Aqui está a coisa com que o senhor, sonhou! A bala de izquente!...
E mostrou a bala de izquente. O senhor Imperador achou muita graça e pagou a aposta que era de muito dinheiro, ao esperto do senhor Tartaruga...

*transmitido por Manuel do Sacramento Pontífice (Sum Mé Cléclé)*
*(histórias populares santomenses compiladas por Fernando Reis, em "Soiá II", 1977)

3 comentários:

planaltobie disse...

Escrito como se estivessemos a ouvir... Assim até dá mais gosto!

PCosta

Zohguy_Saiyajin disse...

Caro Eugénio,

muito boa idéia de fazer um blog cultural local! Parabéns!

Jorge Ramiro disse...

Quando eu era criança, tinha uma tartaruga. Então, depois eu comecei a trabalhar no Labyes e, em seguida, me tornei um veterinário. Não só por a tartaruga, mas eu amo os animais. Eu sou um apaixonado do minha profissão.