quarta-feira, abril 26, 2006

Liberdade

“Liberdade”
(Tela da série “Capoeira”, de
Michelle Doyle “Cigana”)


LIBERDADE*

Aos operários que por melhores salários lutam,
aos camponeses que por melhores dias reclamam,
a Liberdade os recompensará...

Às mulheres que pela igualdade batalham,
aos homens que pelos seus direitos gritam,
a Liberdade chegará...

Aos países que pela libertação clamam,
aos povos famintos que contra a fome esbracejam,
a Liberdade sorrirá...

Aos povos tiranizados que contra a opressão batem,
aos países pobres que contra a miséria combatem,
a Liberdade também os abraçará...

A Angolana Revolução
os Movimentos emancipalistas,
os Heróis da Libertação,
a Liberdade os jubilará...

Liberdade,
pequena é esta palavra,
múltiplos os seus sentidos.
Para muitos um suspiro,
um clamor;
para todos, porém,
um símbolo,
muito sangue e muita dor.
.
*Lobitino Almeida N’gola*
*(feito em Luanda a 28-Abril-1975)

segunda-feira, abril 24, 2006

Poemas para Abril: Oito estrofes soltas

“Os Cravos da CPLP”
(Montagem de
elcalmeida)


Poemas para Abril: Oito estrofes soltas*
(Aceder ao integral de cada poema pelos títulos que ao lado e no fim se indicam)


Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração? (Ang – “Angolano”, Neves e Sousa)


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. (Bra – “Soneto de Separação”, V. de Moraes)


O drama começa no momento
em que nasce a ideia de "partir"
Aí param os sonhos
E começam os pesadelos. (CV – “Emigrante”, Ana Júlia Sança)


A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento. (GB – “Sofrimentos”, Carlos E. Vieira)


Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos (Moç – “Sonho de Mãe Negra”, Kalungano)


Gozo sonhado é gozo, ainda que em sonho.
Nós o que nos supomos nos fazemos,
Se com atenta mente
Resistirmos em crê-lo. (PT – “Gozo Sonhado”, Ricardo Reis)


O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais. (STP – “Onde estão…”, Alda do Espírito Santo)


Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama, poema, tempo e o espaço,
Das gerações que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver. (TL – “Pátria”; Xanana Gusmão)


*Partes de poemas de autores lusófonos*
*(Aceder ao poema integral pelos títulos: 1-“
Angolano”, Neves e Sousa, Angola; 2-“Soneto de Separação” Vinícius de Moraes, Brasil; 3-“Emigrante”, Ana Júlia Sança, Cabo Verde; 4-“Sofrimentos”, Carlos Edmison Vieira, Guiné-Bissau; 5-“Sonho de Mãe Negra”, Kalungano [Marcelino dos Santos], Moçambique; 6-“Gozo Sonhado”, Ricardo Reis, Portugal; 7-“Onde estão os Homens caçados neste vento de loucuras”, Alda do Espírito Santo, São Tomé e Príncipe; 8-“Pátria” de Xanana Gusmão, Timor-Leste;)

domingo, abril 23, 2006

Dia Mundial do Livro: "Deus Acorda"

"Borboletas"
(Tela de Élia Laranja)
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"Deus pode ser uma borboleta"*

António aproveitou o regresso da viagem para apanhar imensas flores selvagens junto à tia Bijou, entre risos e brincadeiras. A ideia seria oferecê-las às freiras! O padre, esse, ficou isolado, a observar a alegria inenarrável misturada com os sorrisos puros e liberais de António e Brynner. "Deus pode ser uma borboleta branca como uma borboleta negra... Quem sabe tia Bijou? Não são estes insectos diurnos e nocturnos? Que interessa a cor?", indagava António, ingenuamente, a respirar a pureza do ar do campo selvagem, ornamentado de formigas, quissondes, grilos, osgas e sardões. Cada ser com a sua própria categoria! Cada ser com a sua própria dignidade!
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*Ana Paula de Castro*
*(romancista angolana-portuguesa; trecho do livro "Deus Acorda", ed. Papiro editora, 2006)

quarta-feira, abril 19, 2006

Retrato de Cabo Verde

“Calheta Funda, Cabo Verde”
(foto de
Jorge Alves)

Retrato de Cabo Verde*

Ilhas de aroma quente,
Que embalam a gente,
Num abraço de bem-estar!

Mornas dolentes,
Coladeiras sensuais,
São danças tradicionais,
Que tanto eu vi dançar!

Em praias de areias branquinhas,
Apanhei búzios e conchinhas.
Dei comigo a sonhar…
Aventuras mil vivi.

Foi assim que lá cresci!

Vi pragas de gafanhotos,
Vi cabras comer papel,
Vi uma tartaruga velhinha,
Comi docinhos de mel!

Visitei algumas ilhas,
Naveguei naquele mar,
Ó arquipélago, só sabi,
Bô será sempre nha crechéu
!

*Maria Félix*
*(uma portuguesa que viveu África; retirado do livro “Eu vivi África”, ed. da autora, 2006)

terça-feira, abril 18, 2006

conto moçambicano 2: Conto Pindérico: Missa paganizante...

“Habitación de escritor con computer”
(Oleo/Contrachapado de
Luis Rejano)
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Conto Pindérico: MISSA PAGANIZANTE de LADRÕES da ESCRITA *

A Tico Dji Bolili, A Kê Ê Na Nau!
(Provérbio ronga «de Maputo» com mais de 100 anos. Tradução: - o País caiu na podridão, já não há respeito!)

Na savana ausente de ideias e de cócoras, um candidato a escriba de jornais, próximo de uma barraca de cerveja, vai recopiando textos alheios. Em simultâneo, copioso se espuma no esforço de olhar de amiúde o fundo da garrafa em busca de ideias ausentes que tardam em surgir para iluminar o “galo” inchado luzindo, no alto do seu corocoto, coroca, da última queda das suas incursões nocturnas ao som da shigumbaza na discoteca improvisada do John Muzamba, refugiado da Serra Leoa, ali p’rós lados da Polana Caniço.

O escriba –, Manoel Ferinando, seu nome. Acólito da Missa Paganizante de ladrões. Personagem típica nos meios dos “masse mídia” meio sem massas nem masse – yogurte, talvez xibuko ou tontonto, bebidas lá da região austral africana. Uma das conquistas da revolução Moçambicana. Manoel Efe, ao escrever, se retorcia em “delirium tremis”, trembling, tremulando no insustentável peso deficitário da criatividade, conspurcando-se no regurgitar de suas próprias cogitações “decubitárias”.

A personagem deste Conto Pindérico, Manoel Efe – sem xibongo (swivongo), apelido africano (não confundir com xipongo, o bode com os túbaros carcomidos que alguns comem. Dizem dar potência. Não sei). Bem, sem ofensa, sem xibongo, talvez ele se considerasse “destribalizado” para agradar aos herdeiros do Quadrado de Marracuene, em Guaza Muthine, que ressurgiram em Maputo e um pouco por esse imenso Moçambique em tertúlias quase, quase, “whites only” dos golden old days de LM and Beira City –, tipo Rhodesian and South African style. Bem, os Caldas Xavier, Roque de Aguiar, Paiva Couceiro, Ayres de Ornelas, Machado etc., tiveram as suas “Praças Indígenas” como em Tete / Zambézia e Nampula, Azevedo Coutinho e Neutel de Abreu, tiveram os seus atchicundas / sipaios. Curiosidade; se viajássemos na máquina do tempo para 2 de Fevereiro de 1895 a nossa personagem Manoel Ferinando estaria de que lado? Mistéérioo! Como numa célebre telenovela brasileira. Bem, sipaios sempre existiram, iluminados pela luz ténue de um xipêfo de consciência com pavio de petróleo do patarao (patrão), de Ligiboa ou acantonado na Polana Cimento.

Manoel Efe, sem xibongo (swivongo), recebia do senhor deus dele “o patarao”, as gorjetas / sagoate do fim do mês dos 200 mil meticais por crónica x 4 semanas. Mais ou menos 8 $USD x 4.

Manoel Efe, o tal sem apelido, habitava o País dos ladrões de colarinho engomado e sem goma. Apesar de que havia uns bacanos que gostavam de ser honestos, no entanto, considerados fora de moda. A carteira profissional de Manoel Efe, o tal sem… (já sabem), dizia, a carteira prof. havia sido emitida pelo Sindicato sem Sindicância predatória e por aí fora, do além.

Obviamente, efectuar um Safari pela savana adentro há que acautelar por estar repleta de “vulture’s” (abutres), quizumbas, “scavengers” ou xiguevengos (môluenes, bandidos), tipo necróforos ou pior: - escritores que tratam de temas pouco limpos. Sem crise. Pró Safari todos iam preparados com rede mosquiteira made in China via Bordaleja, Portugal. Sem esquecermos o sheltox spray imported do Johne para espantar tinongana, moscardos tsé-tsé chupadores de sangue, mosquitos e as melgas alusitanizadas pretensamente “cafrializadas” na savana, para Moçambicano ver e “cousas e lousas “ deste género. Ao Manoel Efe, tinha sido disponibilizado um computador lá na savana, perto do bebedouro dos patos bravos. Bem, o teclado tava assim um pouco que a modos meio de banda como os tectos das “baracas” (sem um erre) do Dumba Nengue do Museu (Maputo), dos tempos áureos do whisky João Caminhante (J.W.), meio metxi – txito (xi-xi) com algum corante remanescente do Scotch dos Highlander’s de saias axadrezadas das geladas montanhas da Escócia.

De quando em vez, o Manoel Efe, bom rapaz, recebia uma palmadinha nas costas, bem limada com lima nas arestas do compadrio da savana. O Manoel Efe, quando eruptava na escrita postas de magumba vindas do esfíncter à boca escancarada, era presenteado com o famoso rótulo da perdiz, faisão… ou será galinhola? Dá igual. Era o The Famous Grouse, Scotch Whisky.
Mas atenção, não confundir com a outra perdiz mais robusta com penas e garras de milhafre.

Well, o Manoel Ferinando, visitado pelas bruxas do Inhassoro ou de Mambone, no seu cérebro cansado (do Manoel), surgiam uns vaipes de relâmpagos e ele de cócoras freneticamente se meneando no chão da sala, massacrava o teclado do computador também no chão, por sinal, em performance, não lá muito bem computa, nem cômputo no geral. Aí então Manoel Ferinando mal se sustinha nas rótulas de seus joelhos, quando pretendia levantar-se.
Entretanto, na entreaberta porta da sua toca de minsse (hiena), surge uma silhueta feminina mal encoberta por uma mini-saia. Era Nandoca –, cheia de desgraça, se bamboleando nas largas ancas, miraculosamente, suspendendo um fio dental nas entrelinhas do entreposto de destinos cruéis sofridos. Nandoca, desafia o Manoel Efe, a uma ida à “churasquera” do Calú, da Av. 24 de Julho em Maputo.
O problema do Manoel Efe, o tal sem xibongo, é que nesse exacto momento se esvaía em espasmos de espuma meio “esgargalado”, pendendo para um dos lados de seu corpo, ombro a fintar o chão –, “jaze”, ele, esgotado.
Só conseguiu balbuciar: -. “Nandooca… como ginga vucééé!!! “
Te End! (The end). Mas não é o fim. Cantando e rindo lá vai ele!


*João Craveirinha*
*(escritor moçambicano; conto inicialmente publicado no jornal moçambicano, da Beira, "O Autarca", edição nº. 1052, de dia 18.04.
2006)

segunda-feira, abril 17, 2006

Venha para mim

"Paisaje etéreo"
(Óleo sobre tela, de
Sara Diciero, 2005)


Venha para mim*

Venha!
Quero fazer-te minha amada
Uma virgem sagrada
Dona de um céu
E rainha de todo mundo.

Venha!
Quero te ter
Como a centelha do mundo
Alguém eleita por Deus
Feita um escudo
Para se tornar meu amparo.

Venha!
Quero fazer-te minha mãe
Pura e clemente
Para o mundo não te esquecer
Mas lembrar-se sempre
De mim
E todos os homens...
Pobres mortais

Venha para mim
Porque bendita
Quero que sejas
Lembre-se de mim
Entre em mim
E me dê a paz

*Luis Miguel*
*(poeta angolano, Abril 2006)

sábado, abril 08, 2006

Naturalidade

“Savana Africana”
(Fotografia retirada
daqui)


Naturalidade*

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

*Rui Knopli*
*(poeta moçambicano (1932-1997), um poeta da moçambicanidade)

segunda-feira, abril 03, 2006

A tua ausência

“Regressando a casa”
(Ilha de Moçambique, 2004, foto de Dawany, Maputo)
.

A TUA AUSÊNCIA*

Em teu olhar aprendi a sonhar
Em teu corpo aprendi a amar
Nas tuas lágrimas aprendi a chorar
Em teus lábios aprendi a falar
Em teus passos aprendi a andar

Foste mãe, amiga e namorada...
Foste sonho, alegria e esperança...
Foste tudo para mim... que me esqueci de ser teu
E foi assim que o nosso sonho morreu
Como o sol se rendendo ao mar.

Ensinaste-me a viver
Ensinaste-me a idolatrar-te... Rainha!
Mais jamais ensinas-te a esquecer-te
E muito menos a perder-te.

E agora sonho que me amas
Choro a tua ausência
Dedilho em ritmo de desespero
A tua presença
Canto, grito, falo...
Mas nada trará a alegria de teu sorriso
E ninguém saberá pintar o sol como tu!
.
*Eusébio Sanjane*
*(nova poesia moçambicana (n.1988), editou "Rosas e Lágrimas”, sob a chancela da Ndjira, e foi vencedor, em 2005, do Prémio Especial Jovem “Il Convivio 2005”, da Academia Internazional Il Convivio, na secção “Jovens em língua estrangeira”, em Sicília, Itália)