O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.
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segunda-feira, novembro 20, 2006

Nação Macua

“Mulher macua”
(Tela de
Patricio Serendero)

Nação Macua*

Todos os meus amigos sabem que nasci na Zambézia e que sou macua. Gosto muito desta minha condição.
Sou macua, pertenço a nação macua e gosto de o ser, sinceramente identifico-me completamente com as gentes desta nação, com o lugar, com os costumes, com o comer, com o viver; enfim Sou macua porque me sinto macua.
Incrivelmente hoje, ao receber uma chamada telefónica um amigo me disse: Estou na tua terra e chove aqui a cântaros. Fique radiante, tão radiante que repeti o que acabara de ouvir. Aí é? Está a Chover na minha terra?
Imediatamente obtive a seguinte resposta: Tua terra não, vives tantos anos fora daqui que já não pertences a este lugar.
Senti pela primeira vez que a nossa terra está enraizada em nós; é algo que trazemos num lugar recôndito mas sublime do nosso Eu. É que quando o meu amigo referiu que eu já não era filha da nação macua e já não pertencia mais aquele lugar, senti uma tão grande necessidade de reafirmar as minhas raízes macuas. E fi-lo veementemente: ao lhe ter dito que vivo em Maputo há mais de 20 anos, mas nada tenho haver com este lugar, nem com as suas gentes, nem com os seus costumes.
Disse-lhe que a minha terra é muito bonita igualmente as mulheres são muito bonitas, referi que na nação macua, as mulheres não são “loboladas” (dote pago pelos homens aos familiares da noiva para casar com uma mulher no sul de Moçambique) e os homens da minha nação, da (nação macua) são circuncidados e tem obrigatoriamente um rádio transístor, uma machamba (lavra) para a subsistência da família, sabem caçar, pescar, e partilhar.
Na nação macua Munherar (vergar a coluna e arrastar as duas mãos no chão em direcção ao velho, até que este a boa maneira macua te diga, fica a vontade) mas antes te pergunta pela tua família, pelo teu casamento, pela colheita e só então agradece o teu gesto e pede desculpa e insistentemente te diz põe-te bem. Fica a vontade, não é preciso estar assim.
Algumas pessoas em alguns lugares (nações) chamam a isso de "velhos e bons tempos", mas honestamente creio que esta bondade é produzida pela severidade experimentada! Quase todos passámos por dificuldades financeiras e a manutenção do básico da vida requer trabalho constantemente. Essa experiência comum produz dentro de grande parte da minha nação um senso de empatia de uns para com os outros. A polidez e a gentileza são muito mais comuns; os direitos da outra pessoa são grandemente respeitados. E, falando de respeito, as mulheres são consideradas damas. Os homens moderam o seu vocabulário quando vêem mulheres por perto e procuram ser cavalheiros, afastando-se ligeiramente do caminho como gesto de respeito ao encontrá-las na estrada, abrindo alas e cedendo lugares nas esteiras para que elas se sentem. Hoje, essas atitudes de cortesia são consideradas anacrónicas, se eu, esquecer que os tempos são outros e me atrever a esperar que me abras a porta ficarei plantada na espera. Perdoa-me amor, pensei que fosses um cavalheiro! Condescendência. Esta é uma palavra que seguramente é de difícil compreensão nos dias de hoje. Estamos muito atarefados correndo atrás das nossas ambições de ter dois carros (ou mais) na garagem e uma antena de TV que capte sinais de satélite! Se entrarem ladrões na casa do vizinho e fizerem uma limpeza lá - é problema deles. Acredita se quiseres, houve um tempo - não tão longe assim - quando as pessoas se respeitavam e se valorizavam. Fazíamos Qualquer sacrifício para nos ajudarmos em casos de necessidade. Hoje, ninguém está muito preocupado com os outros – estejamos bem ou mal! Ser mesquinho hoje é uma virtude, como resultado, poucas pessoas agora param para considerar o quanto Deus tem nos abençoado. Temos muito mais tempo livre do que tinham os nossos pais, proporcionado pelas novas tecnologias! Entretanto, em vez de aproveitá-lo, redobramos nossos esforços trabalhando em horas extraordinárias para ganharmos mais e podermos gastar mais! Uma pessoa famosa, cujo nome não me lembro, disse: "Não há esperança para o homem que já está satisfeito". Isso bem poderia ser o lema em algumas nações hoje. Corremos de um lado para outro, parecendo formigas que tiveram o seu formigueiro destruído, muitos privando-se do sono e outros voando no "piloto-automático" para decidir o que vão comprar a seguir. Poucos parecem satisfeitos com o que já têm e estão literalmente enlouquecendo e tentando adquirir tudo. Vês algo errado neste quadro? A revelação é que estamos no caminho para a destruição.

*Suzete Madeira*
*(Poetisa e contista da nova vaga moçambicana)



quinta-feira, setembro 28, 2006

Mensagem de Ojna a Adrocasued

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"Anjo com Escadas"
(Tela de
Suzart)
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Mensagem do Anjo de Angola «OJNA» ao irmão Deus Acorda*

DEUS ACORDA, digo-te, que muitos filhos da nossa Angola continuam a verter lágrimas de sofrimento, caídas na terra que nos criou na esperança de sermos felizes. Uma terra resplandescente de riqueza, onde o sol de todos os dias, espalha a riqueza dos seus raios de luz na igualdade.
..........A paz, chegou finalmente, alguns resultados se veêm: famílias que se reencontra e andavam perdidas no desespero da guerra, hoje caminham nas estradas ainda cicatrizadas de ódio em reencontros de novos mundos, jamais reprimidos; crianças voltam à escola com o seu lápis de carvão e borracha para se fazerem homens, (a,e,i,o,u); muitas órfãs, muitas com marcas nos leves corpos dóceis; homens e mulheres trabalham nas lavras, a cantar e a suar canções de liberdade; operários madrugam para o emprego, contribuindo para o bem estar social… Mas a paz não é total! Existem ódios ressentimentos e invejas que vêm de longe e continuam a manchar os corações do nosso País. Dividem-se em ideologias e vontades próprias, muitas para espalharem a luz do Sol a todos: «fazer do pobre mais rico»!
..........Angola precisa de AMOR!
..........Tu António Deus Acorda, que nasceste no quimbo, que brincaste descalço à beira dos rios, mas que o destino te sorriu para não seres um contratado à ordem do colonialismo, estudastes e trabalhas para a construção do País novo com alma sempre renovada e com muitas lágrimas no coração, humilde, continuas a ser um verdadeiro exemplo de esperança.
..........Dá esta mensagem António Deus Acorda ao Povo de Angola:
..........Angola para ter esperança próspera, precisa de Paz e de Justiça. É preciso que todos se empenham e não olhem para o lado para ver o que os outros fazem para depois fazerem também. Não há que ter receios dar os passos para a construção da Nação. Há que cantar o Hino Nacional Acordados e Unidos em Amor.
..........Viva Angola
..........Viva a União dos Angolanos
..........Deus Acorda
a) Ojna.

*Ana Paula de Castro*
*(romancista angolana-portuguesa)

sexta-feira, setembro 08, 2006

“Deus Acorda” no Horizonte Angolano

"Um antigo machimbombo das estradas angolanas"
(Foto de autor desconhecido)
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(Uma despretensiosa análise literária, publicada na revista Eventos, edição nº 4 de Agosto de 2006, ao belo e interessante livro de Ana Paula de Castro “Deus Acorda” cujo um dos textos já aqui foi publicado)*
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Um bom amigo, de uma forma que teve tanto de audaciosa como desafiadora – e ele sabe que nunca fujo a desafios – incumbiu-me de fazer uma análise ao recente livro de Ana Paula de Castro, “Deus Acorda”, um empolgante romance de cerca de 250 páginas com a chancela da Papiro editora.
Sabendo ele que prefiro que façam análises aos meus trabalhos em vez de do fazer ao de outros, mesmo assim impôs-me essa árdua, mas agradável e estimulante tarefa.
Árdua, porque sendo um especialista de assuntos internacionais me seria, difícil ter suficiente objectividade para analisar um Romance que se passa com e na nossa querida Angola.
Agradável e estimulante, porque o livro é mais que um romance. É uma perfeita narrativa da moderna História de Angola. Daquela que vai dos anos pré-insurreccionais – nos idos de 1963 – até à Dipanda. Mas se bem analisarmos o romance de Ana Paula de Castro, constata-se que o tema acaba por se estender até ao presente, até agora.
Um tema que vai muito para além da simples vivência de um miúdo angolano, Adrocasued – acrónimo gentio do cristianizado Deus Acorda –, nascido num quimbo perto de Benguela, e que, como todas as crianças angolanas do período pré-luta pela independência nacional vivia do que a terra lhe oferecia, sem preocupações de maior e em paz contemplativa com a natureza mas ávido do conhecimento e da inquietude que todos os humanos demonstram ter na presença o desconhecido.
Um rapazinho que se fez homem na amizade e na adversidade
.”
O artigo pode ser lido, na íntegra, acedendo aqui.
* Eugénio Costa Almeida

quinta-feira, junho 15, 2006

Uma estrada para um Vinhais desertificado ou desrespeito humano?

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Ponte sobre o rio que banha Rio Onor
(Foto do espólio da
C.M. Bragança)

Uma estrada para um Vinhais desertificado ou desrespeito humano?*

Este pedaço de estrada até Vinhais é curva e mais curva, num carrossel que nos obriga a estar tentos e não ter pressa. Aldeia após aldeia, vou-me apercebendo da precariedade da vida por estes sítios. E admiramo-nos que a desertificação das regiões interiores seja galopante!
Quem aqui vive não se pode dar ao luxo de ter um doença súbita que exija cuidados médicos urgentes. Uma grávida dará certamente à luz o rebento pelo caminho.
Qual não será a angústia dos pais se tiverem uma criança doente ou vítima de acidente? Isto é longe do mínimo cuidado imprescindível. Dou razão ao meu filho mais velho, quando insiste em me dizer que o computador pode salvar vidas e é mais útil do que aquilo para que muita gente o usa. Realmente, se nestas terras com acessos difíceis as Juntas de Freguesias estivessem equipadas com computadores ligados aos serviços de urgência de um grande hospital, em caso de emergência, poder-se-ia actuar mais rapidamente. Mas para esta solução funcionar era exigível que existisse um médico ou paramédico e uma pequena estrutura funcional que pudesse providenciar os cuidados urgentes necessários. Damo-nos conta que não há recursos humanos com preparação bastante para uma solução que economizaria vidas humanas, dinheiros, infelicidade e angústia.
Estranho país este que continua a ser maioritariamente paisagem para inglês ver!
Não seria mais pragmático e sustentável criar as condições básicas do que permitir que as nossa cidades vão tendo todas elas as suas Reboleiras e Damaias? E as consequências indesejáveis que o crescimento urbano descontrolado acarreta? Desertifica-se de um lado a terra e cria-se, por outro, a desertificação interior do ser humano!
E não haveríamos de ser um país deprimido?!
Torram-se as matas e florestas do país e cultiva-se sardinheiras nas janelas dos prédios porque as plantas criam a ilusão de qualidade de vida na cidade. E a publicidade imobiliária ainda vinca bem que está a levar a natureza para o coração da cidade!!!
Somos tão amigos dos animais que até temos boutiques com roupa para o melhor amigo do homem! E devastamos o habitat dos esquilos, coelhos, perdizes, javalis, lobos, linces, pombos e sei lá que outros! Nós, os animais racionais somos os mais idiotas da criação! A água está poluída. O ar poluído está. A terra desprezada. E nós todos acumuladinhos a ouvir o autoclismo do vizinho a disparar num qualquer dos muitos apartamentos do prédio que habitamos. Sociedade evoluída a nossa! Será o stress uma condição de vida moderna ou será o reflexo da nossa falta de inteligência, da nossa insanidade social?
(…) Os cataclismos mais não são do que a Natureza a assinalar que está saturada, invadida, e, quando assim é, ela expurga-se , elimina os mais fracos e deixa os sobreviventes aprender de novo, desbravar uma nova vida, indiferente às dores , às perdas e aos desgostos de cada um. Quem a respeita? O respeito tem de ser recíproco. Como exigir o que não se dá? Quem pode pedir a devolução do que não entregou?

*Fátima Pinto Ferreira*
*(escritora portuguesa; extracto do livro “São Judas Iscariote” edições Cosmos, 2006)

domingo, junho 04, 2006

Homenagem a Raul "Ouro Negro" Indipwo

"A Mãe"
(Tela de Raul Indipwo, do espólio da
F. Gulbenkian)

N’gola 1483*

N'gola 1483...
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproxima veloz, cada vez mais, com o vento...
Era o Homem Branco que chegava; numa mão uma cruz, na outra a espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos kissanges, marimbas e txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com Terra Negra.
Então N'gola viu a sua terra esventrada gritar de dor e transformou-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua Terra.
N'gola adormeceu um sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou... e a voz dizia:
- Não durmas mais... Não durmas mais...
Era Novembro e as acácias vestiam-se de garrido vermelho.
O Sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de Tamarindo e Jambo... uma Lindeza!

*Raul Indipwo*
*((1933-2006) uma nota pela sua mão, na contra-capa do álbum Lindeza, 1979, ed. Orfeu)

sexta-feira, maio 26, 2006

Conto da vida real 4: Café das noites angolanas

"Cortando Café, Atitlán"
(Tela de
Matias Gonzalez Chavajay)

Café das noites angolanas*

O café acompanha-me de há muito. Foi lá longe, onde a saudade castiga mais, que aprendi a amar o sonho e a sonhar com o amor. O café, companheiro fiel, estava sempre ao meu lado. Nas noites de boémia, como despertador da vida, e nas noites de trabalho, como sintonizador da realidade. Era, como diria Sebastião Coelho,... o Café da Noite.

E de dia? Claro que também. Servia, aliás, como «desculpa» para que no Himalaia (um dos mais conhecidos bares de Nova Lisboa) a malta se encontrasse para discutir um pouco de tudo e de tudo um pouco.

Recordo (permitam-me este regresso) que o Zé Pedro, empregado aprumado e sempre eficiente, nunca me servia só o café. Ia bem mais longe. Ainda eu estava a entrar no Himalaia e já a bica, o jornal (A Província de Angola) e um maço de cigarros (AC) entravam em cena na mesa habitual. A tudo isto, uma vez por semana, o Zé Pedro juntava algo mais: a revista «Notícia» e, reparem, já aberta na página de «A chuva e o bom tempo», do João Fernandes.

Creio que o Zé Pedro foi assassinado nos finais de 1975. À tua memória, caro Zé Pedro, ergo mais uma chávena de café.

Por cá, nas ocidentais e poluídas praias lusitanas, o café tem sido amargo. Mesmo assim, a tal Carta a Garcia está cada vez mais perto do destinatário. Pelo caminho foi preciso derrotar os que me aconselhavam a deitar a carta na primeira valeta.

É claro que, no meio desses, apareceram alguns que me ajudaram a tirar pedras do caminho, a desminar promessas e a adoçar o café. Reconheço, contudo, que também essas vicissitudes foram úteis. Ajudaram-me a compreender que o possível se faz sem esforço, tal como me permitiram entender que a obra-prima do Mestre não é a mesma coisa que a prima do mestre-de-obras. Infelizmente muitos de nós (já para não falar de muitos dos outros) continuam a confundir a beira da estrada com a estrada da Beira.

Entre dias sem pão (e foram muitos) e pão sem dias (foram mais ainda) cá cheguei. E cheguei continuando, no essencial, a acreditar no (im)possível.

Para mim, como se comprova neste desabafo alentado com a perspectiva de um saboroso e revitalizante Café Lusófono, o amanhã começa ontem. E é isso que (pelo menos comigo) continua a acontecer.

Tentarei o impossível (o possível faço eu todos os dias) para, nas chávenas das palavras, entre dois cafés, ajudar a construir páginas da História de Lusofonia. Não sei se terei engenho e arte para tal, mas de uma coisa tenho a certeza: não há comparação entre o que perde por fracassar e o que se perde por não tentar.

E tentar é coisa a que estamos todos habituados. Por isso... Venha daí um Café, se não for angolano que seja, pelo menos, lusófono.


*Orlando Castro*
*(jornalista angolano-português; conto inédito)

domingo, abril 23, 2006

Dia Mundial do Livro: "Deus Acorda"

"Borboletas"
(Tela de Élia Laranja)
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"Deus pode ser uma borboleta"*

António aproveitou o regresso da viagem para apanhar imensas flores selvagens junto à tia Bijou, entre risos e brincadeiras. A ideia seria oferecê-las às freiras! O padre, esse, ficou isolado, a observar a alegria inenarrável misturada com os sorrisos puros e liberais de António e Brynner. "Deus pode ser uma borboleta branca como uma borboleta negra... Quem sabe tia Bijou? Não são estes insectos diurnos e nocturnos? Que interessa a cor?", indagava António, ingenuamente, a respirar a pureza do ar do campo selvagem, ornamentado de formigas, quissondes, grilos, osgas e sardões. Cada ser com a sua própria categoria! Cada ser com a sua própria dignidade!
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*Ana Paula de Castro*
*(romancista angolana-portuguesa; trecho do livro "Deus Acorda", ed. Papiro editora, 2006)