quarta-feira, junho 28, 2006

Estrela Subversiva

"Star of Morning"
(Tela de
Anatoly Sokolov, 2002)
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Estrela Subversiva*

Há uma bela e sonâmbula estrela
Escondida na noite escura sem esperança.
Algures, acima ou abaixo de nós,
Talvez num charco qualquer,
Quem sabe nos olhos de toda a Mulher
Quem sabe nos dedos de toda a Criança...

*António Cardoso*
*(poeta angolano (1933-2006); poema inédito, escrito em 23.02.1955, cujo o manuscrito me foi gentilmente cedido pela Suzete Antão)

sexta-feira, junho 23, 2006

Irmão Europeu II

"Doubt"
(Fotografia de
Micha Gordin, 1994-1995)
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Irmão Europeu II*

Não confundas
Meu irmão europeu,
A palavra europeu
Com a cor da pele.

Não confundas
Meu irmão europeu,
A palavra africano
Com a cor da pele.

Meu irmão europeu,
No século XXI, estamos
E europeu ser
Na cor da pele está não.

Meu irmão europeu
No século XXI, estamos
E africano ser
Na cor da pele está não.

Meu irmão europeu
Só se pode sentir
A pele da cor que vestires
E não a cor da pele
Que não sentires.

Ser ou não ser
Não é a questão,
Pois a pele da cor
Está do lado do coração
E a outra, está na aparência.

E, somente dói
Ausente de paixão
E nossa alma corrói,
Sem Amor nem compaixão.

Mas, meu irmão europeu,
Um dia compreenderás,
A minha indignação
Quando como eu, vestires
As peles de todas as cores!

*João Craveirinha*
*(Poeta, contista e artista plástico moçambicano)

quinta-feira, junho 22, 2006

Escada sem corrimão

“Escada”
(Uma foto-composição de
Fernando Angulo)
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Escada sem corrimão*

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus,quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p ’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

*David Mourão-Ferreira*
*(Poeta português (1927-1996), poema retirado da "Antologia Poética [1948-1983 ]",ed. Dom Quixote,1983)

sábado, junho 17, 2006

conto da vida real 6: A prova de vida de Kalandula

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“Uomo d'Africa”
(Técnica mista da fotocópia em branco e negro de fotografia,
Paolo Ferrari, 2000)

A prova de vida de Kalandula*

Kalandula é hoje um homem com 52 anos de idade, quatro mulheres, 12 filhos, 25 netos e, nos últimos tempos, bisnetos. Vive em Viana, Norte de Luanda, numa casa de adobe com quintal vasto, cujo quintal tem uma vasta figueira.
Cada mulher tem o seu quarto e cada uma tem a sua vez de cozinhar para Kalandula que a segunda-feira dorme com uma, terça-feira com outra e assim sucessivamente. E assim, o homem vai projectado o melhor, esperando o pior e aceitando de ânimo igual o que Deus quer.
Os filhos, estes, já estão despachados. Espalharam-se todos por Luanda, a grande cidade. Juntam-se debaixo da figueira do quintal de Kalandula quando há pedidos de noivado ou problemas que reclamem a presença do pai.
Kalandula chegou a Luanda ido de Malange, sua terra natal, antes da refrega eleitoral de 1992.
Kalandula anda com esferográficas no bolso da camisa, mas não sabe escrever. Anda com livros debaixo do sovaco, mas não sabe ler. Mas em contrapartida tem uma sabedoria de se lhe tirar o chapéu aprendida ao longo dos tempos, lá na sua terra, debaixo do embondeiro em companhia dos mais velhos do seu quimbo que enquanto contavam as suas estórias não punham de parte uma garrafa de caxi, uma espécie de whisky caseiro feito à base de milho ou ainda de banana.
Quando Kalandula chegou à grande cidade não sabia bem o que fazer. Não tinha profissão que lhe pudesse ser útil na cidade naquela altura. Ou seja, a enxada e a catana de nada lhe serviam em Luanda. Mas ficar de braços cruzados não podia. Alguma coisa tinha de fazer para sustentar a família.
Depois de muito pensar, arranjou emprego numa firma como estivador. Ele era destemido e muito apreciado pelos colegas. Muitas vezes falava de coisas que não percebia e punha os colegas a rir, mas a bom rir mesmo. Não fumava e nem bebia. Estava sempre pronto para responder às chamadas dos chefes, bem como executar as tarefas que lhe eram incumbidas.
Um dia, de manhã manhãzinha, chegada ao serviço, o chefe mandou-lhe comprar uma Coca-cola e uma sandes no mercado mais próximo e deu-lhe uma nota de mil kwanzas. Kalandula recebeu o dinheiro e foi comprar o que lhe tinham mandado, não só para o chefe mas também para ele.
Quando chegou a empresa entregou ao chefe a Coca-cola e a sandes. Ia a retirar-se quando o chefe perguntou-lhe:
- O troco?
Kalandula respondeu:
- É só o chefe que come?
O chefe de Kalandula ficou boquiaberto, sem saber o que dizer diante da resposta. Porém, deu um desconto por saber que Kalandula era sem maneira, não respeitava nada nem ninguém que não fosse seu familiar.
À semelhança da história de que o malangino não gosta de pagar renda, vezes havia a que a Kalandula não apetece trabalhar.
Certo dia, Kalandula chegou mal disposto ao serviço e disse que não queria trabalhar. O chefe chegou ao lado dele e disse:
- Não quer trabalhar, está mal disposto vai para casa!
Kalandula não tugiu nem mugiu. Mostrou-se indiferente. E coisa esteve neste ritmo durante quarenta e cinco dias. O sector dos recursos humanos mandou-lhe uma cartinha a dar conta do risco que ele corria de ser despedido. Até que um dia o patrão despediu-lhe mesmo.
E ele disse ao chefe:
- Aqui ninguém me despede. Eu que sei se continuo aqui ou vou-me embora!
O chefe não ligou. Passou-se a primeira semana, a segunda e a terceira e Kalandula continuava a fazer-se presente na presença sem no entanto querer vergar a mola. Farto da situação, um dia o chefe chegou ao lado de Kalandula e determinou:
- Não lhe quero ver mais no recinto da empresa. Segurança ponha este homem fora!
Kalandula disse:
-Ai é? O senhor esqueceu-se que sou malangino? Só um minuto, vou à casa de banho.
Kalandula foi à casa de banho como se fosse fazer necessidades. Enquanto o chefe dava outras orientações, Kalandula foi de forma sorrateira para o gabinete dele e pôs-se todo nu.
Meia hora depois, o chefe e o seu adjunto estavam de regresso ao gabinete aonde encontraram Kalandula nu em piloto, de pernas cruzadas e a assobiar.
Quando o seu chefe e o seu adjunto entraram apanharam um susto e perguntaram:
- Mas o que é que se passa aqui, Kalandula?! Estás a ficar maluco ou quê?
Kalandula parou de assobiar mas mantendo as pernas cruzadas respondeu:
- O chefe não me despediu? Agora estou aqui para saber se o chefe terá capacidade de sustentar as minhas quatro mulheres, os meus 12 filhos e os meus 25 netos, sem falar dos meus bisnetos.
- Kalandula, pelo amor de Deus! Vista-se e vai-se embora.
-Não, não me visto nem saio daqui do seu gabinete se não me garantir que estou novamente empregado. Aliás, o senhor tem quarenta minutos para me dar uma resposta, fim dos quais um dos seus filhos poderá morrer de febre logo a noite. Só se eu não nasci em Malange e lá não há feitiço forte!
O chefe disse, não sem antes ligar para casa para saber dos filhos, a transpirar em tempo de cacimbo:
- Pronto, Kalandula! Estás empregado novamente. Vamos voltar a ser amigos, ok?
Kalandula vestiu-se calmamente, apertou a mão do chefe e do seu adjunto e saiu a cantarolar do gabinete do chefe: - Ku Malange, ku malangéééee, nguiame!
E disse para si mesmo:
-Nós de Malange somos vivos, até os patrões conseguimos dobrar.

*Jorge Eurico*
*(jornalista angolano, texto publicado inicialmente n’
O Arauto)

sexta-feira, junho 16, 2006

Pescador

"pescador em Calumbo, Angola"
(Foto; desconhecido autor)
.
PESCADOR*

Oh! Pescador!
é a pesca o teu trabalho
e a água a tua maior inimiga.
Oh! Pescador!
incansável trabalhador
de quem uma população vive;
tens
o peixe por inimigo,
a barca por companheira,
a lua por conselheira
e o povo por teu “consumidor”.
Nas longas horas de fadiga
tnes na faina,
às vezes,
uma conselheira amiga.
És tu pescador
que passas ao relento
a noite inteira,
para alimentar uma população
que,
no entanto,
de ti,
se alheia;
da vida terrível que levas,
noite e dia,
no teu frágil
mas mui amigo dongo.
Na madrugada quando regressas
lá longe, uma luzinha te espera.
É a tua companheira
aflita,
resignada,
à tua padroeira
por ti reza.
E quando chegas,
cansado,
depois de muita luta
infrutífera e sem rendimento,
a maior parte das vezes,
tens uma simples funjada
como parco alimento.
Sim, é este o seu sustento,
para quem uma vida dura,
agitada,
passa.
População ingrata
que tal vida não te reconhece,
a qual,
muito banzé começa a fazer
quando o peixe,
esse alimento oblongo,
começa a desaparecer.
E tu,
incansável trabalhador,
para população satisfazeres
no teu frágil dongo
ao mar agitado
lá vais tu,
a rede lançar,
para ingratos comensais
sua fome saciar.
É esta a tua sina inexorável.
Oh trabalhador incansável.
Vassalo,
qual escravo maldito
de uma multidão,
ansiosa,
que o teu peixe espera.
E sempre,
sempre no teu frágil
e instável
dongo.

*Lobitino Almeida N'gola*
*escrito em Luanda, Maio de 1975

quinta-feira, junho 15, 2006

Uma estrada para um Vinhais desertificado ou desrespeito humano?

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Ponte sobre o rio que banha Rio Onor
(Foto do espólio da
C.M. Bragança)

Uma estrada para um Vinhais desertificado ou desrespeito humano?*

Este pedaço de estrada até Vinhais é curva e mais curva, num carrossel que nos obriga a estar tentos e não ter pressa. Aldeia após aldeia, vou-me apercebendo da precariedade da vida por estes sítios. E admiramo-nos que a desertificação das regiões interiores seja galopante!
Quem aqui vive não se pode dar ao luxo de ter um doença súbita que exija cuidados médicos urgentes. Uma grávida dará certamente à luz o rebento pelo caminho.
Qual não será a angústia dos pais se tiverem uma criança doente ou vítima de acidente? Isto é longe do mínimo cuidado imprescindível. Dou razão ao meu filho mais velho, quando insiste em me dizer que o computador pode salvar vidas e é mais útil do que aquilo para que muita gente o usa. Realmente, se nestas terras com acessos difíceis as Juntas de Freguesias estivessem equipadas com computadores ligados aos serviços de urgência de um grande hospital, em caso de emergência, poder-se-ia actuar mais rapidamente. Mas para esta solução funcionar era exigível que existisse um médico ou paramédico e uma pequena estrutura funcional que pudesse providenciar os cuidados urgentes necessários. Damo-nos conta que não há recursos humanos com preparação bastante para uma solução que economizaria vidas humanas, dinheiros, infelicidade e angústia.
Estranho país este que continua a ser maioritariamente paisagem para inglês ver!
Não seria mais pragmático e sustentável criar as condições básicas do que permitir que as nossa cidades vão tendo todas elas as suas Reboleiras e Damaias? E as consequências indesejáveis que o crescimento urbano descontrolado acarreta? Desertifica-se de um lado a terra e cria-se, por outro, a desertificação interior do ser humano!
E não haveríamos de ser um país deprimido?!
Torram-se as matas e florestas do país e cultiva-se sardinheiras nas janelas dos prédios porque as plantas criam a ilusão de qualidade de vida na cidade. E a publicidade imobiliária ainda vinca bem que está a levar a natureza para o coração da cidade!!!
Somos tão amigos dos animais que até temos boutiques com roupa para o melhor amigo do homem! E devastamos o habitat dos esquilos, coelhos, perdizes, javalis, lobos, linces, pombos e sei lá que outros! Nós, os animais racionais somos os mais idiotas da criação! A água está poluída. O ar poluído está. A terra desprezada. E nós todos acumuladinhos a ouvir o autoclismo do vizinho a disparar num qualquer dos muitos apartamentos do prédio que habitamos. Sociedade evoluída a nossa! Será o stress uma condição de vida moderna ou será o reflexo da nossa falta de inteligência, da nossa insanidade social?
(…) Os cataclismos mais não são do que a Natureza a assinalar que está saturada, invadida, e, quando assim é, ela expurga-se , elimina os mais fracos e deixa os sobreviventes aprender de novo, desbravar uma nova vida, indiferente às dores , às perdas e aos desgostos de cada um. Quem a respeita? O respeito tem de ser recíproco. Como exigir o que não se dá? Quem pode pedir a devolução do que não entregou?

*Fátima Pinto Ferreira*
*(escritora portuguesa; extracto do livro “São Judas Iscariote” edições Cosmos, 2006)

sexta-feira, junho 09, 2006

Férias - Descanso - Boa Leitura

(O autor está no canto inferior da imagem)

O hábito de uma boa leitura, mesmo - ou talvez, principalmente - em férias não - nunca - se deve perder.
Este vosso editor, durante a próxima semana não colocará nem contos nem poemas porque irá gozar de merecidas férias e pôr boa leitura em dia.
Boa semana de bons poemas, bons contos e óptimos romances aqui e / ou em outros blogues e sítios que prezam a cultura acima de tudo o resto.
Abraços
Eugénio Costa Almeida

domingo, junho 04, 2006

Homenagem a Raul "Ouro Negro" Indipwo

"A Mãe"
(Tela de Raul Indipwo, do espólio da
F. Gulbenkian)

N’gola 1483*

N'gola 1483...
E no horizonte surgiu uma canôa gigantesca com velas brancas, que se aproxima veloz, cada vez mais, com o vento...
Era o Homem Branco que chegava; numa mão uma cruz, na outra a espada. Nos olhos, um brilho estranho de espanto, de cobiça, de triunfo. Ao som dos kissanges, marimbas e txingufos, ele desembarcou, calçando os pés com Terra Negra.
Então N'gola viu a sua terra esventrada gritar de dor e transformou-se. Viu seus filhos serem levados para outros mundos. Conheceu uma nova cultura, uma nova violência, a intolerância que se abatia sobre a sua Terra.
N'gola adormeceu um sono longo e agitado, cheia de vozes no peito, crescendo, crescendo tanto que, num alarido despertou... e a voz dizia:
- Não durmas mais... Não durmas mais...
Era Novembro e as acácias vestiam-se de garrido vermelho.
O Sol vinha a nascer com um brilho novo, sobre a Terra perfumada de Tamarindo e Jambo... uma Lindeza!

*Raul Indipwo*
*((1933-2006) uma nota pela sua mão, na contra-capa do álbum Lindeza, 1979, ed. Orfeu)

sábado, junho 03, 2006

Conto da vida real 5: A lição do meu amigo Samuel

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"A um “puto” que não deixaram ser Homem"

A lição do meu amigo Samuel*

Já lá vão tantos anos, diz-me uma das partes do cérebro (espero que a direita, já que gosto pouco da esquerda...). No entanto, o coração contrapõe que parece ter sido ontem. E parece mesmo.
No então Liceu Norton de Matos, em Nova Lisboa (Huambo), o professor José Fernandes Duarte (que os alunos conheciam mais por “pele vermelha” ou “pelinha”) dava uma daquelas aulas de português que algumas vezes (não eram tantas como isso, desculpem lá!) eram chatas como o Diabo.
- Samuel, não te importas de ler em voz alta a tua dissertação?, disse o “pelinha” com aquele ar doutoral que, contudo, deixava transparecer uma ponta de humor, coisa rara (muita rara) durante as aulas.
A turma ficou em silêncio. Sempre que o Samuel falava, até mesmo fora das aulas, a malta prestava atenção. Há muito que ele nos habituara às suas avançadas teses sobre quase tudo.
O Samuel, já na altura com uma estrutura física – tal como a intelectual – acima da média, levanta-se, afina a voz e aí vai disto.
O silêncio tomou conta da aula. Todos estavam de olhos postos no Samuel. Muitos de nós até esquecemos o tempo que faltava para o intervalo.
E o Samuel lá esteve mais de meia hora a ler o trabalho que tinha feito. O “pelinha” alternava um tímido sorriso com a máscara professoral que habitualmente usava. Nós, os colegas, também estávamos atentos. Não pasmados porque, verdade seja dita, do Samuel (ou Sam, como carinhosamente o tratávamos) não esperávamos outra coisa.
Finda a leitura, o “pelinha” disse:
- Samuel, não te importas agora de resumidamente “traduzir “ tudo isso para português?
Foi a gargalhada geral, incluindo o Sam.
Tudo porque, mais uma vez, o Samuel nos tinha dado uma lição de... português. De facto, ele era um dos melhores, talvez o melhor, aluno daquela disciplina. E de tal modo o era que quando queria – como foi o caso – a sua linguagem erudita nos deixava de cara à banda.
Acontece que, pouco tempo depois, Angola entrou em guerra. Fomos uns para cada lado. Meses depois, vi pela última vez o Samuel. Estava fardado e de metralhadora na mão. Mais tarde, anos talvez, disseram-me que o Sam tinha morrido em combate.
Porque carga de chuva transformaram o Sam num militar?
Porque carga de chuva Angola teve de perder um dos seus mais válidos filhos?
Porque carga de chuva mataram Samuel Pedro Chivukuvuku?

*Orlando Castro*
*(jornalista angolano-português; conto inédito, Junho de 2006)

Vem, Cacimbo

"Cacimbo"
(Tela de
Paiva Carvalho)


Vem, Cacimbo*

Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caído sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.

*Henrique Guerra*
*(poeta angolano)