“Tempo”sexta-feira, janeiro 14, 2011
Ano VI - Há tempo…
“Tempo”
Há tempo…*
Só Alguns sentem e Poucos Compreendem!...
“Fonte da Vida” (Óleo sobre tela, Alexandre Segrégio, 1994, daqui)
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A Nossa dor
A dor de ser excluído
De não sentar a mesma mesa com os negros e brancos
Assimilados da alta sociedade
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A dor de desejar e não possuir
De sonhar
Não alcançar e diluir…
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Este cansaço incansável
Esta dor que eu trago no peito
É demais!
Não aguento
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Só alguns sentem e poucos compreendem
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A negritude da alma do meu musseque
O grito nostálgico de aflição
Da pobre mãe quando seu monami
Parte de cólera para eternidade nos seus braços
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Meus irmãos,
Minhas irmãs
Minhas mães
Das mais diversas cores e espécies
Espalhadas pelo mundo
Tal como Nguxi,
Também sinto a vossa dor...
.
Só alguns sentem e poucos compreendem
*(Poeta Universal; poeta angolano, 10 Janeiro 2011)
quarta-feira, dezembro 29, 2010
Conto da vida real 12: Mangueira, a minha árvore natalícia
Assentada, provavelmente pelas mãos hábeis do Destino, no meio do meu bairro, uma frondosa e magnífica árvore era a testemunha muda das nossas brincadeiras darias e, principalmente, das oviteke brincadeiras natalícias.
Ao contrário da Europa, em África, pelo menos no meu bairro e na minha cidade as prendas, quase sempre pobres mas eram as nossas, eram abertas na manhã do dia de Natal.
Era ver os kandengues da minha idade à volta do seu tronco e sob a enorme copa da árvore, brincar com os carros de lata – por vezes e quase sempre feitos a partir de latas de azeite e de leite em pó –, ou rodar os brilhantes aros de pneus de bicicletas arrastados por arames ou paus, ou fazer saltar as bolas coloridas que algum lá recebia e já não havia árvore que nos impedisse de jogar futebol de rua, esquecendo, por momentos, a habitual bola de trapos.
Às vezes um ou outro lá recebia uma pistola e era vermos a brincar ao okukwata-kwata ou aos polícias e bandidos. Ou, ainda, alguns de nós lá éramos mais felizardos e recebíamos pequenos carritos com que fazíamos pistas para corridas à volta da nossa uti. A mesma árvore que nos oferecia as suas salientes raízes para nos sentarmos e lermos algum livro que nos aparecia.
E quando nos cansávamos havia sempre um mais afoito que subia à árvore e apanhava os seus belos, matizados e suculentos frutos que pendiam como bolas coloridas de uma qualquer árvore de Natal.
Ou quando havia problemas a resolver os Mais Velhos, os seculos, se reuniam em njango, sob ela, para discutir e resolver as makas que surgiam.
Aka, como tenho saudades do tempo em que era kandengue e brincava à volta e sob a copa da nossa mangueira ouvindo o belíssimo trinado dos olonjila!
Aka, como tenho saudades da minha mangueira e ela ainda permanece, em pé, imponente, no largo do bairro, como uma sentinela sempre pronta a testemunhar, mudamente, a vida de todos!
Glossário:
Aka – interjeição (por vezes de admiração)
Kandengue - criança
Makas – problemas
Njango – redondel onde se fazem reuniões importantes
Okukwata-kwata – agarrar (agarra-agarra)
Olonjila(onjila, singular) – pássaros
Oviteke (ochiteke, singular) – matutinos, crepúsculos
Seculos – Kotas, Mais Velhos
Uti – Árvore
*Usil Eyala Tibolo*
*(heterónimo de um poeta e contista angolano; feito em Dezembro de 2010)
Imagem de velhos tempos
"Sem título"(Tela de Toia Neuparth, espólio da Casa de Angola, Lisboa)
Imagem de Velhos Tempos !...*
De meus tempos de criança
eu tenho muita saudade
e a minha mais tenra idade
guardo sempre na lembrança
Lembrança que me acompanha
pelas sendas do caminho;
eu jamais sigo sozinho
por mata, rio ou montanha.
nas retinas dos meus olhos
tenho imagens sem abrolhos,
brilantes de luz e paz...
São imagens que carrego
de tempos que não renego,
meus tempos de nunca mais...!
*Gotas de Cristal*
*(pseudónimo de Sónia Maria Ditzel Martelo, poetisa brasileira; poema publicado na II Antologia de poetas lusófonos)
sábado, dezembro 18, 2010
A minha Árvore de Natal
A minha Árvore de Natal*
Todos os anos
*Lobitino Almeida N´gola*
*(Dezembro 2010)
sexta-feira, novembro 26, 2010
Queria Eu
“Mulheres de Angola”(Desenho de Neves e Sousa)
Queria Eu*
Pintar uma carta bandida
Que namorasse loucamente
Teus sentimentos
Oferecer – te a fresca
Quissângua da Mamãe Téu
E numa noite inocente
Mostrar-te as maravilhas deste
Belo céu…
Descompassadamente
Andar de mãos dadas
Contigo na calçada
E em tempos de pranto
Ser o alento
Para a sua alma
Amargurada
Dar-te um beijo fingido
Ser a alcoolemia
E embriagar teu coração de amor
Para que me pudesses
Amar perdidamente
E jamais! Te esquecerias:
Do meu beijo arrepiante
Do meu toque tocante
Do meu choque chocante
Ser o Destino
Que não pudesses fugir
O sentimento ardente
Frustrante que te
Fizesse rugir
Queria eu
Óóóóó
Mas sei que nada sou
Simplesmente
Um poeta
Que pinta o poema
Por meio da caneta....
*Sandro Feijó*
*(Poeta Universal; poeta angolano, Novembro 2010)
segunda-feira, novembro 01, 2010
Deixem-me chorar enquanto ouço Angola

(Tocadora de marimba)
(Fotografia retirada daqui)
Deixem-me chorar enquanto ouço Angola*
Deixem-me chorar baixinho
enquanto ouço Teta Lando,
deixem-me ser adulto e criança
na saudade que anda devagarinho
quando parado vou andando
nesta dor de tanta esperança.
Deixem-me chorar baixinho
enquanto ouço Elias Dia Kimuezo,
deixem-me sonhar mais um dia
olhando o horizonte mesquinho
de um sofrimento bem coeso
aliviado apenas por uma poesia.
Deixem-me chorar baixinho
enquanto ouço Carlos Lamartine
entrar numa alma despedaçada,
como se fosse um passarinho
que, como eu, também não atine
com a mangueira estilhaçada.
Deixem-me chorar baixinho
enquanto ouço Rui Mingas
nas ruas da minha memória,
esburacada pela falta de carinho
que anoitece enquanto gingas
numa saudade carente de história.
Deixem-me chorar baixinho
enquanto ouço o Paulo Flores
cantar um semba de verdade.
Deixe-me chorar bem pertinho
de todos os grandes amores
que hoje apenas são saudade.
*
*(Jornalista, poeta e contista angolano-português; poema inicialmente publicado aqui)




