sexta-feira, março 31, 2006

conto brasileiro 2: “Sonhando te espero”

"Asleep with Lamb"
(Óleo sobre tela de
Robert Cronin, 2002)
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Sonhando te espero*
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Foi num dia chuvoso. Uma semana havia se passado sem que ele a visse.
Horas e horas, milhas e milhas rodadas com seu corpo inerte no banco daquele ônibus. Todos os dias ele fazia a mesma coisa: descia, dirigia-se até a frente do velho prédio, apoiava o corpo contra a parede e, sob a inadequada luz do poste abria um livro e começava a ler.
De tempos em tempos ele erguia o olhar sobre as letras e mirava a escuridão da rua. Não importava quanto tempo ele esperasse, ela não mais aparecia.
Todos os dias, após algumas horas lendo em pé e esperando, ele guardava o livro na mochila e dirigia-se para a porta do bar. Lá ele não entrava, apenas permanecia parado do lado de fora observado o movimento e imaginando se aquele recado que ele havia deixado no mural ainda estava lá.
O recado dizia mais ou menos assim: te amo, por isso te espero. Te espero amando cada minuto e sorvendo esse cálice de angústia como se fosse conhaque que nada mais faz do que aquecer meu peito. Um dia estaremos juntos, mesmo que já não me reconheças. Um dia, naquela mesma mesa em que sentamos, você irá olhar nos meus olhos e irá, se pronunciar uma única palavra, mostrar-me tudo aquilo que eu preciso saber.
Não estava assinado. Seu amor por ela era anônimo e óbvio, ridículamente escondendo-se como pessoas escondem-se no silêncio das palavras apenas para revelar seus sentimentos em olhares.
Mas já havia uma semana que ele não mesclava seu campo de visão ao dela. O que fazer? Durante toda sua vida ele segurou frouxamente a mão da sanidade. Não lhe custaria nada largá-la agora.
Ele preferiu um método novo. Saiu dali para não mais voltar, decidiu fazer como um pintor que muda suas tintas e com rápidas pinceladas recobre sua arte mudando as tonalidades de seus sentimentos. "Não mais irei amá-la" - pensou ele.Acreditando nesta prerrogativa, foi ao encontro de uma nova vida onde mais tarde nem ele mesmo se reconheceria. Amou intensamente, mas sempre sonhou com ela ao fechar os olhos. Acordava já vestido com a máscara que decidira usar e sem perceber essa mesma máscara iria deformando suas verdadeiras feições, transformando-o no cruel e triste personagem que ele havia criado. Suas mentiras iam caindo uma a uma, seu castelo de areia transformaria em lágrimas, tantas lágrimas que pensaria em morrer. E na verdade, parte do que ele era morreu, mas não matou seu amor por ela.
Todas as noites ele entrava num mundo onde o tempo havia parado e lá ele ainda era aquele jovem sonhador descobrindo novidades em livros que foram escritos muito antes dele nascer. Naquele mundo ele ainda tinha o frescor na pele e o brilho no olhar, que só uma paixão juvenil é capaz de trazer, e sentia todo seu corpo como se fosse coberto por zonas de sensíveis ao prazer do toque dela.
Acordar só não era insuportável pois a lembrança de seus sonhos logo se esvanecia ante a visão da vida que construiu.
Enlouquecido após tanto tempo flertando com a falsidade, procurou uma saída. Ergueu-se violentamente, sem notar que a maior violência aflingiria a sí mesmo conforme suas ações. Mas nenhuma violência seria maior do que continuar ali como estava.
Para alcançar a liberdade foi capaz de rasgar sua obra, uma tela que lhe custara tão caro que tivera de pagar com a essência de sua juventude. E ele não deixou transparecer nenhuma dor enquanto desconstruia a si mesmo publicamente, embora estivesse em terrível agonia por dentro.
A primeira coisa que ele quis fazer, foi mais uma vez tentar consertar aquele pequeno grande engano que cometera de maneira estúpida e infantil a tantos - agora anos - atrás. Bobo, nem ao menos percebeu que havia se transformado e que jamais voltaria a ser o que era. Por mais que tentasse.
Quando percebeu isso, tornou-se mais seco que areia do deserto. E agora seu sorriso é desprovido de qualquer amor.
Restou-lhe o desejo. Mas desejo nada mais é do que fumaça, que rapidamente lhe dá a vida, para em seguida tirar.
Ele queria muito renascer nela. Mas nem mesmo ela existe para que ele possa renascer.
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*Zohguy*
*(Conto de um autor brasileiro e retirado daqui)

sexta-feira, março 24, 2006

Um dia Lindo

"Pôr de sol na Galé"
(Foto de elcalmeida)
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Um dia Lindo*
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Está um dia lindo
E as crianças brincam lá fora
O mal não é bem-vindo
Sacode-os debaixo dos sapatos agora.
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Está um dia lindo
E a vida tem (muita) graça
Está um dia lindo
E eu te convido na dança.
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Está um dia lindo...
Está um dia lindo!!!

*Noé Guill*
*(24-Mar-2006; Inédito; a nova poesia angolana)

segunda-feira, março 20, 2006

Dia Mundial da Poesia: Regresso Eterno

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Timor-Lorossae, a esperança
(título meu, foto retirado
daqui)

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(21 de Março, Dia Mundial da Poesia)
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Regresso Eterno*

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma ideia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita.

A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentido
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia.

Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.

*Ruy Cinatti*
*(Poeta luso-timorense (1915-1986) esquecido por alguns e amado por muitos outros)

Dia Mundial da Poesia: Canção dos Rapazes da Ilha

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Jangada em alto mar
(Acrílico sobre tela de
Oscar Araripe)
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(21 de Março, Dia Mundial da Poesia)
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Canção dos Rapazes da Ilha*

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.


*Aguinaldo Fonseca*
*(Poeta cabo-verdiano)

domingo, março 19, 2006

Poema para meu pai

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"Father and child"
(Desenho retirado daqui)
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Poema para meu pai*

Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).

*Ivo Barroso*
*(Poeta brasileiro)

sábado, março 18, 2006

Conto moçambicano 1: Conto do pequeno Édipo

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“Perdidos en el recuerdo”
(Pastel sobre cartão de Ana María Aguilar)
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Conto do pequeno Édipo*

O HOMEM tamborilou os dedos no balcão. Pediu, com uma voz cinzenta:
- Uma cerveja.
Pediu como quem pede ao ar. Isto é, sem dar inteira conta nem da mulher de preto, sentado no banquinho, nem do miúdo, jogando guêime.
A mulher abriu uma média. O homem ignorou aquela, e apalpou as garrafas no fundo da caixa térmica. O rapazito suspendeu o jogo, e olhou-o com cara de poucos amigos.
- Vá brincar lá dentro - berrou a mulher, indicando a saída que dava para o resto da casa. Por sinal a única porta da barraca.
O balcão-janela dava para a rua, e estava, assim, o cliente, único àquela hora, de costas para a rua. Decidiu-se pela cerveja que a mulher lhe estendia. Afinal, estava tudo gelado por igual, e a quente, e a sede, tanta, que ele virou o primeiro copo num instante.
- Que tal? - perguntou a mulher, tentando animá-lo.
Ia já no mar alto da vida. Navegação difícil, pelos vistos. Emanava dela uma discreta tenacidade, a dor sem queixume, a arte de sobreviver. Não há remo mais lesto que o coração feminino.
- Que tal, é boa?
O homem tinha a língua presa. O humor azedo, ao fim de um dia de trabalho, é coisa normal. Ainda bem; por estes anos, de repente, Deus trocou-nos cogumelos por barraca. Entre o "chapa" e a casa, uma pausa para relaxar.
À terceira média, soltou, mesmo a língua, dizendo:
- Boa.
A mulher parou de acender a vela, e encarou-o. Melhor, encararam-se. À luz tremelicante do fósforo, ela surgiu da roupa da viuvez. Era como acender a própria beleza.
O menino estava à porta, espiando aquele momento mágico. A mulher virou-se para o garoto. Pela primeira vez, conheceu nele a cólera.
- Suca daqui! - ordenou a viúva.
Mas o puto voltaria sempre: mãe o meu guêime, mãe: tem um rato dentro da pasta; mãe um refresco; estou com fome, mãe…
- Dá-lhe um pacote de "Maria" - disse o cara. E acrescentou, peremptório: - na minha conta.
Mas isso, se é que ele não sabia, não o compraria. Quando muito, o seu momentâneo sumiço.
À quinta média, o cliente tinha já, não só a língua mas também o espírito solto, um verdadeiro poeta. Mudou-se para o canto do balcão onde à luz da vela, a mulher escolhia folhas de couve para o jantar. Como se o bafo da cevada fosse o suco da própria poesia, cochichou:
- Boa como a própria dona?
Nisso o menino reentrava. Não gostou daquela súbita intimidade. O peito cheio de ar, incapaz de falar, fixou o cliente com olhos de cobra.
- Xixi cama! - berrou o homem.
O puto deu um passo em frente. E descarregou os pulmões:
- Rua-rua-rua!
Pegando num vasilhame, avançou para o balcão. Estava em causa não propriamente o lugar do seu pai, mas o seu próprio. Qual pequeno Édipo, avançou pois, disposto a morrer. Eterno é o labirinto dos afectos, e por isso, estória sem desfecho, esta.

*Suleiman Cassamo*
*(moçambicano (n.1962), retirado de "Poesia e Contos de Autores Africanos")

Conto angolano 5: Kerere, a galinha de angola

"Galinha d’Angola"
(Artesanato brasileiro
)
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Kerere, a galinha de Angola*
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Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!».
Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se.
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos...
Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere?
Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia!
Naquela época Kerere era toda preta...
Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim".
Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse a trás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito.
Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar.
Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas...
Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada.
Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência!

Nota: Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, Etu ou Galinha de Angola.

*Tata riá Nkissi Nkassuté*
*(retirado da secção de Contos tradicionais de Angola, do
Sanzalangola)

quarta-feira, março 15, 2006

Vida é mesmo assim

"José Craveirinha na prisão"
(Desenho de João Craveirinha ª)
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Vida é mesmo assim*

Em dia de reclusos
pela Maria e filhos passa um carro.
Um filho diz – Mamã
vai ali um amigo do papá
ele viu-nos e virou a cara.
E a Maria apenas disse – É a vida meus filhos.
Vocês hão-de ver. Quando o vosso pai sair
todos esses vão ser amigos dele outra vez.
A vida, meus filhos, é mesmo assim...
...
No velho machimbombo da carreira
um solavanco
e Maria apreensiva recomenda:
- Cuidado com a tigela.
Tudo menos entornarem
o caril de amendoim do vosso pai.
Esta foi uma das piadas do nosso quotidiano
que só mais tarde Maria me contou.
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ª (Nota introdutória: O desenho acima foi efectuado aquando da prisão do poeta pela Pide – polícia política portuguesa, que lhe valeu cumprir uma pena de prisão entre 1965 a 1969. Este Poema dedicado à esposa e filhos, refere-se a esse período).
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*José Craveirinha*
*(poeta moçambicano, 1922-2003)

quarta-feira, março 08, 2006

Canção para uma mulher

"The Red Watering Can"
(Tela de
Joyce Norwood)

(Pelo Dia Internacional da Mulher)

Canção para uma mulher*

Nunca me falaste
da tua música
estuprada à força do falo,
nem me contaste
das partículas que
pacientemente raspaste
ao sol para fecundar a terra.
Apenas dizes dos braços
Cruzados à volta do filho
Ou do milho a colher
Sempre espero, pacientemente,
tua boca liberta,
pelas mãos mostrando o sol
e
pelos teus filhos contando-te
da vida que semeaste.

*Ana Paula Santana*
*(poetisa angolana, retirado da Antologia de Poesia, daqui)

sexta-feira, março 03, 2006

Conto brasileiro 1: Daniel

"Gordo"
(Escultura cénica de
Liliana)
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Daniel*
Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte. Essa união desairosa o incomodava. Tivesse ultrapassado aquele momento crítico em que rapazinhos e mocinhas se entreolham, pesquisam-se, em que as mudanças no corpo, na face, são mudanças de revelação, Daniel teria sobrevivido àqueles elos de siamesas. Mas as sobrancelhas para Daniel não eram propriamente uma revelação, porque há muito vinham sendo anunciadas. Se pudesse, naquela quadra de sua vida, ter-lhes-ia dado uma cirurgia. Uma nova face, de quaisquer outras sobrancelhas, finas, raras, densas, espessas, não importava, desde que fossem gêmeas cada qual a seu canto. Ele se sentia, ou melhor, os meninos e meninas faziam-no sentir-se um rapaz anormal, em razão de se acompanhar do que achavam anormais enfeites sobre a testa. E enfeites muito salientes, cerrados, que se apresentavam à sua frente, antes que dissesse, "eu sou Daniel". Enfeites incapazes de disfarce. A não ser que se colocasse permanentemente de perfil.
Em outra pessoa aquelas sobrancelhas viriam a ser um distintivo de elegância, mas em Daniel ... Ele era gordo, carregava a fama de ser um quase idiota. Quem é tido como insignificante já traz em si a sua zombaria. O grupo de alunos se tornava coeso, punha-se mais camarada na eleição de Daniel para o divertimento. Que julgavam tão inocente:
- Daniel, tira essa máscara. Tira essa máscara, Daniel!
E num requinte de inocência, um do grupo virava-se para as mocinhas:
- Quem quer, quem quer um quilo do cabelo das sobrancelhas de Daniel?
Ele não se escondia, não descia para um buraco, porque era impossível sumir por entre os sinais do seu rosto. A classe toda numa gargalhada geral estourava.
As meninas, a princípio tímidas, terminaram por aderir a esse tipo de malhação. Porque era malhado, Daniel transformara-se involuntariamente no contato entre moças e rapazes, que antes mal se relacionavam. A cada troça as mocinhas dobravam a risada. Ruborizavam-se. Os rapazes, sentindo a terra fértil, acercavam-se mais estreitamente. Um banquete.
Desse banquete Iara não participava. Entre a alegria ruidosa ela estendia olhos silenciosos para Daniel. Ele baixava a cabeça. Talvez ela fosse a única pessoa da turma que o olhava como um todo, inteiro. Ele furtava ainda mais o rosto. Isso deixava Iara indignada: por que em meio a toda aquela zombaria era ele o envergonhado?! Iara sentia uma indignação muda, apenas sentimento, de sentimento que fere somente a quem o possui, porque não encontra meios ou argumentos para se exteriorizar. Como, com que palavras, com que forças levantar-se e falar mais alto que a selvageria? Como dizer, "turma, isso não se faz"? Como argumentar, "não se acanham de zombar de um colega, a quem vocês mesmos transformaram num coitado? A vergonha que ele sente deveria ser nossa", como dizer? Para se expressar assim, era preciso que Iara tivesse mais que catorze anos, e também um cajado, forte, com poderes de bater e emitir raios de um profeta. Impossível. Ainda que tais meios tivesse, ainda assim seria derrubada. Pois não é próprio do grosseiro se comprazer na grosseria? A grosseria não suporta qualquer alteamento. Revolta-se, quando importunada.
Em verdade, nessa indignação muda, Iara possuía, ela mesma, um quê de resguardo à troça.
Seu pai era um louco, um desequilibrado, que vivia a falar sozinho, a pregar um evangelho raivoso nas ruas, na praça, a todos e a ninguém. A causa imediata de sua pregação era sempre uma pequena contrariedade, real ou imaginária, mas de qualquer forma desenvolvida até as raias da explosão. Que explodia, deixando um dilema para as vítimas: ou concordavam com as suas palavras, e nesse caso atingiam a salvação, ou caso contrário emborcariam de cabeça, atingindo as profundas, sem remédio ou absolvição.
Ele não tinha nome, era o Pastor do bairro. E tinha a mania insuportável de ficar no portão do Ginásio, à espera angustiada da filha. Calvo, de bigodes bastos, metido sempre num casaco de frio, ainda que o sol infernizasse a tarde. Vez por outra ia até a porta da sala. Mergulhava a cabeça de olhos grados, e perguntava somente a ela, por cima de toda a turma: "já acabou?". E voltava ao portão, em passos miúdos, rápidos. Ah, que não lhe levassem a filha, sabia da fama do Ginásio, e daqueles meninos: taras, tarados, demônios. Fincava os pés na vigilância do pátio, dos muros, das janelas.
Não fosse a suave altivez de Iara, há muito ela teria caído nas graças da zombaria. Tivesse ao menos um ar resignado e ter-lhe-iam caído em cima, até arrancar-lhe o pêlo. Ao aparecimento do pai ela erguia o semblante para o quadro-negro, surda, parecendo a Daniel com a mesma expressão severa de Joana D'Arc. Risinhos abafados corriam, mas não prosperavam.
Ela era bela, suavemente bela. Pequenina, morena, de olhos amendoados. A mulher que seria já estava aos catorze anos organizada. Esta certeza vinha menos do corpo que da expressão madura do rosto. Que banhava, essa expressão madura, todo o seu corpo. Ela era aquela menina que se namorava, que se abraçava fortemente, degustável, sem pressa, até o fim dos dias.
Daniel comia-a, com os olhos. Desastrado que era, ao invés de soprar, quebrava o prato pelas beiras.
Como um acréscimo a seu natural, Daniel perdia definitivamente o senso da realidade, ao sentir pelo faro, pelos ouvidos, pelo perfume, a presença de Iara. Inchava o peito, girava nos calcanhares de modo a ficar de perfil, como um Napoleão de hospício, para acintosamente demonstrar que não a via. Mas aquele moreno hindu o atordoava. Quando em casa idealizava seus próximos atos, prometia-se que ela receberia a demonstração do seu afeto. Num repente virava-se, lá, aqui estava ela, à margem de toda agitação, quieta. Como um raio lembrava-se da própria testa, mas era necessário demonstrar-lhe o próprio afeto: cuspia-lhe um cumprimento, rápido, como uma bala, arremessada por um aceno bruto de queixo: "Ôi !". E tornava à posição napoleônica, ouvindo, discutindo não sabia o quê, porque nada ouvia, nada falava do que lhe vinha à mente, que era a presença morena, loucamente morena, daquela pele que um dia sonhava distantemente, perdidamente tocar com as mãos.
- Daniel, você está me ouvindo?
O colega, irritado, chegava-se ao pé do seu ouvido, para baixá-lo do além:
- Você já viu uma boceta? Hem? De cabelo, bem cabeluda, você já viu uma boceta?
- Sim, claro... a ruiva não é como a morena.
Estremecia. Ia sentar-se a um canto, isolado. Era necessário agir. Mas o que era o agir? As pernas suavam. Uma algidez progressiva ia-lhe tomando os membros. Os planos de ação rápida, arquitetados lá dentro do cérebro, naquele lugar íntimo, no pontinho escuro onde o vôo é livre para todas as coisas ridículas, risíveis, burras, vaidosas, de superstição, de crime, de vingança, roubo e vontade, enfim, naquela célula privatíssima onde o sonho não se envergonha de sonhar, naquele pontinho que imagina, tudo que ele gerasse era incompatível com a sua pessoa. Ele, Daniel, sonhava para outro Daniel. O Daniel sonhado não era para o Daniel materializado. Por que não fazia a corte como os outros? Nem como os outros, qualquer corte que fosse algo mais que recolher a cara envergonhada quando Iara descia até ele os humaníssimos olhos? Haveria alguma estrada, alguma ponte invisível, que ninguém visse, somente eles dois, que o levasse até ela?
Se ele fosse magro, se não mangassem dele, se tivesse dinheiro no bolso, se tivesse futuro, isto seria uma ponte. Se ao menos tivesse sobrancelhas de gente. Suas calças não guardavam vinco. A camisa não lhe descia, verticalmente, por entre as calças. Ela apenas era puxada, repuxada, naquela barriga. Se ao menos fosse como Gilvan, como Aciole - eles são olhados, eles podem ter as meninas que quiserem, num assobio. Elas abanam o rabo, como cadelas. Eles têm um rosto bonito, de galã de cinema. Como seria feliz se tivesse o corpo deles ... eles têm músculos, são atletas, pulam obstáculos, mostram-se num porte ... Eles têm peito de homem. Onde está a mulher que não consigam? Por que a miséria não gosta da miséria? Isto fere. Por que a miséria detesta e pisa a miséria?
Num belo dia, Daniel entrou no Ginásio de sobrancelhas raspadas. Ou melhor, ele amputou o corpo, o ponto onde se uniam as duas asas do pássaro. Ou melhor, pensando em amputar o corpo, inabilmente foi mais longe, amputou também pedaços à esquerda e à direita das asas, fez sumir os pedaços que a natureza fazia cair rumo a um encontro. Melhor, no que sobrou, diminuiu o volume, a espessura dos pêlos, ou das plumas. Melhor, finalmente, tirou plumas abaixo e acima das articulações, reduzindo-as a finas linhas.
A cirurgia deu nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase a dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação.
O turno da tarde, o Ginásio inteiro se levantou. Daniel não conseguia sentar-se em uma cadeira. Ficava rodando, com sua cara gorda de palhaço, por entre a turba excitada. "Mulherzinha, mulherzinha", vinha em gritos agudos, vaias, risadas, de início uma passarada de praga, depois uma massa compacta, "Mulherzinha !". Estrondavam. Num gesto reflexo, Daniel punha as mãos sobre o rosto, protegia a cabeça, como um ser em queda, como um suicida em arrependimento tardio que se lançou do alto de um arranha-céu.
Não se pode dizer que pensava, mas seu arrependimento tardio parecia tão-somente dizer, "em que deu, Daniel, em que deu o teu sonho impossível de se fazer aceito". Ao que outra voz respondia, na mesma escuridão, por entre seu corpo aos soluços, "agora o teu sonho se vai, Daniel. Antes houvesses feito do que era impossível uma hemorragia".
Com solenidade, os professores arrastaram-no para a secretaria. Uma procissão de meninos seguia-os.
Na secretaria, diante daquele ser cabisbaixo, dona Augusta mandou que ele erguesse o rosto. A medo obedeceu: tinha o rosto úmido, inchado, com as inscrições esborrachadas na testa. A diretora então, em seu natural prosaico, achou por bem ajeitar-lhe as interrogações deitadas sobre os olhos, enfeixando-as numa única interrogação:
- Por que você nunca usou um boné, Daniel?
E assinou a sua expulsão.

*Urariano Mota*
*(contista brasileiro, retirado
daqui)

Pobreza

(Mucancalas no árido deserto do Namibe)
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Pobreza*

Ser pobre faz parte da vida
Porque nesse mundo, ninguém tem tudo
Muitos têm o que não queriam ter
E poucos têm o que gostariam ter
Não devia assim ser.
Mas isso faz parte do nosso ser
Ser pobre não é passar a noite com fome
Ter o dia vivido em lamentos
Conviver apenas com muito tormento
Não é termos uma casa de chapa
Trocando carro com uma trote
Ou então uma bina¹
Não é querer estudar
e não ter dinheiro para propina
Não é dormir numa esteira
Em vez do colchão de mola
Ser pobre, não é vestir roupas com remendo
Andar descalço
Adoentar sem ter como ir ao médico.
Comer algo deteriorado
Porque ninguém olha para o consumidor
Não é emigrar pelo mundo fora
Suportando toda dor
Não é ser jogador,
sem ir para liga milionária
Ser pobre, não é ter medo de sair à rua
Com medo de ser pedida gasosa
Não andar fora de hora
Com medo de perder a vida
Andar a vida inteira a pé
Sem aparecer quem nos dê pelo menos boleia
Viver em casa de renda
Sem saber quando construir a sua
Suportar uma pessoa chata
Aturando toda sua tralha
Até os mujimbos², sem esquecer as porcarias
Só porque o tal, é patrão
e tudo está em sua mão
Tudo isso passa de uma desilusão
Mas está longe de ser o pobre.
Ser pobre, pode ser coisa simples
Ser pobre é ter a vida na boa
Pensando que somos os melhores no mundo
Valentes e importantes
É comer e deitar o que sobrou, mesmo sabendo
que na rua, há quem morra de fome
Andar na rua como não me toques
Abusar, bater sem mais e nem menos
Armar-se em vaidoso.
É termos um carro, sem podermos dar uma boleia ao vizinho
Socorrer um doente em agonia
Passar por conhecidos
E aumentar a velocidade de propósito
Esquecer os antigos amigos
Por fazerem parte do clube dos acabados
Incluindo alguns
Que se calhar te deram jeito na vida
É aterrorizar uma rua, bairro ou cidade
Só porque o pai, mãe, ,tio, mano ou outro braço direito
Pertence à elite onde muitos são chamados,
mas poucos escolhidos
É ser comandado por uma preguiça
Se perder antes de partir
Ter a possibilidade de estudar
E esbanjar a sorte aos molhos
É ter medo de partir
Mesmo sabendo que o caminho espera por ti
Não construir uma casa
Porque alguém paga-nos o hotel
Contratar guardas, governantas e mais
Para mostrar que somos demais
Ser pobre, é ter o bolso cheio
Mas ter a mão pesada para uma doação
Por fim, é ver o mal nascer
E ainda ser a fonte do seu crescer
Ser pobre é olhar o outro com inveja
Mesmo que seja por beber uma cerveja
Lutar para subir
Pondo os outros a cairem em cascas de bananas
Ficando às avessas
Ser pobre não é ter algo a faltar
É ter o que nos falta, sem poder parar…

*Luís Miguel*
*(jovem poeta angolano, 28.09.2005 - ¹bicicleta; ²boatos)