quinta-feira, setembro 28, 2006

Mensagem de Ojna a Adrocasued

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"Anjo com Escadas"
(Tela de
Suzart)
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Mensagem do Anjo de Angola «OJNA» ao irmão Deus Acorda*

DEUS ACORDA, digo-te, que muitos filhos da nossa Angola continuam a verter lágrimas de sofrimento, caídas na terra que nos criou na esperança de sermos felizes. Uma terra resplandescente de riqueza, onde o sol de todos os dias, espalha a riqueza dos seus raios de luz na igualdade.
..........A paz, chegou finalmente, alguns resultados se veêm: famílias que se reencontra e andavam perdidas no desespero da guerra, hoje caminham nas estradas ainda cicatrizadas de ódio em reencontros de novos mundos, jamais reprimidos; crianças voltam à escola com o seu lápis de carvão e borracha para se fazerem homens, (a,e,i,o,u); muitas órfãs, muitas com marcas nos leves corpos dóceis; homens e mulheres trabalham nas lavras, a cantar e a suar canções de liberdade; operários madrugam para o emprego, contribuindo para o bem estar social… Mas a paz não é total! Existem ódios ressentimentos e invejas que vêm de longe e continuam a manchar os corações do nosso País. Dividem-se em ideologias e vontades próprias, muitas para espalharem a luz do Sol a todos: «fazer do pobre mais rico»!
..........Angola precisa de AMOR!
..........Tu António Deus Acorda, que nasceste no quimbo, que brincaste descalço à beira dos rios, mas que o destino te sorriu para não seres um contratado à ordem do colonialismo, estudastes e trabalhas para a construção do País novo com alma sempre renovada e com muitas lágrimas no coração, humilde, continuas a ser um verdadeiro exemplo de esperança.
..........Dá esta mensagem António Deus Acorda ao Povo de Angola:
..........Angola para ter esperança próspera, precisa de Paz e de Justiça. É preciso que todos se empenham e não olhem para o lado para ver o que os outros fazem para depois fazerem também. Não há que ter receios dar os passos para a construção da Nação. Há que cantar o Hino Nacional Acordados e Unidos em Amor.
..........Viva Angola
..........Viva a União dos Angolanos
..........Deus Acorda
a) Ojna.

*Ana Paula de Castro*
*(romancista angolana-portuguesa)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Comboio africano

"Comboio angolano"
(CFB – Ponte da Variante do Cubal, foto de
C.Pires)

Comboio africano*

Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assentam os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Lento caricato e cruel
o comboio africano…

*António Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); poema retirado da obra Sagrada Esperança)

sexta-feira, setembro 08, 2006

“Deus Acorda” no Horizonte Angolano

"Um antigo machimbombo das estradas angolanas"
(Foto de autor desconhecido)
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(Uma despretensiosa análise literária, publicada na revista Eventos, edição nº 4 de Agosto de 2006, ao belo e interessante livro de Ana Paula de Castro “Deus Acorda” cujo um dos textos já aqui foi publicado)*
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Um bom amigo, de uma forma que teve tanto de audaciosa como desafiadora – e ele sabe que nunca fujo a desafios – incumbiu-me de fazer uma análise ao recente livro de Ana Paula de Castro, “Deus Acorda”, um empolgante romance de cerca de 250 páginas com a chancela da Papiro editora.
Sabendo ele que prefiro que façam análises aos meus trabalhos em vez de do fazer ao de outros, mesmo assim impôs-me essa árdua, mas agradável e estimulante tarefa.
Árdua, porque sendo um especialista de assuntos internacionais me seria, difícil ter suficiente objectividade para analisar um Romance que se passa com e na nossa querida Angola.
Agradável e estimulante, porque o livro é mais que um romance. É uma perfeita narrativa da moderna História de Angola. Daquela que vai dos anos pré-insurreccionais – nos idos de 1963 – até à Dipanda. Mas se bem analisarmos o romance de Ana Paula de Castro, constata-se que o tema acaba por se estender até ao presente, até agora.
Um tema que vai muito para além da simples vivência de um miúdo angolano, Adrocasued – acrónimo gentio do cristianizado Deus Acorda –, nascido num quimbo perto de Benguela, e que, como todas as crianças angolanas do período pré-luta pela independência nacional vivia do que a terra lhe oferecia, sem preocupações de maior e em paz contemplativa com a natureza mas ávido do conhecimento e da inquietude que todos os humanos demonstram ter na presença o desconhecido.
Um rapazinho que se fez homem na amizade e na adversidade
.”
O artigo pode ser lido, na íntegra, acedendo aqui.
* Eugénio Costa Almeida

segunda-feira, setembro 04, 2006

Retalhos da vida

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"Happiness is Flowers"
(Tela em oleo de
Millie Greene)
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Retalhos da Vida*

Há noites muito escuras em que o vento violento
e ruidoso
traz a tempestade inclemente.

Os trovões e os relâmpagos invadem a madrugada
como se fossem durar para sempre.

Não há como ignorar os sentimentos
que tomam de assalto
nossos frágeis corações.

O medo e a incerteza tiram nosso sono,
e passamos minutos
infindáveis,
imaginando o pior,
temerosos de que o céu possa,
de um momento para o outro,
cair sobre nossas cabeças.

Sem, no entanto,
qualquer aviso,
o vento vai se acalmando,
as gotas de chuva começam a cair
com menos violência
e o silêncio volta a imperar na noite.

Adormecemos sem nos darmos conta do final da intempérie,
e quando acordamos, com o sol da manhã a beijar-nos a fronte,
nem sequer nos recordamos das angústias da noite.

Os galhos caídos na rua,
a água ainda empossada na rua, nada,
nenhum sinal é suficientemente forte para que nos lembremos do temporal
que há poucas horas nos assustava tanto.

Assim ainda somos nós, criaturas humanas, presas ao momento presente.

Descrentes,
a ponto de quase sucumbirmos diante de qualquer dificuldade,
seja uma tempestade ou revés da vida,
por acreditar que ela poderia nos aniquilar
ou ferir irremediavelmente.

Homens de pouca fé, eis o que somos.

Há muito tempo fomos conclamados a crer no amor do pai,
soberanamente justo e bom,
que não permite que nada que não seja necessário e útil nos aconteça.

Mesmo assim continuamos ligados à matéria,
acreditando que nossa felicidade depende apenas de tesouros
que as traças roem e que o tempo deteriora.

Permanecemos sofrendo por dificuldades passageiras,
como a tempestade da noite,
que por mais estragos que possa fazer nos telhados e nos jardins,
sempre passa e tem sua indiscutível utilidade.

Somos para Deus como crianças que ainda não se deram conta da grandiosidade do mundo e das verdades da vida.

Almas aprendizes que se assustam com trovões e relâmpagos
que, nas noites escuras da vida, fazem-nos lembrar da nossa pequenez e da nossa impotência diante do todo.

Se ainda choramos de medo e não temos coragem bastante para enfrentar as realidades que não nos parecem favoráveis ou agradáveis, é porque em nossa intimidade
perante a mensagem do Cristo ainda não se fez certeza.

Nossa fé é tão insignificante que ante a menor contrariedade
bradamos que Deus nos abandonou, que não há justiça.

Trata-se, porém, de uma miopia espiritual, decorrente do nosso desejo constante de ser agraciados com bênçãos que, por ora, ainda não são merecidas.

Falta-nos coragem para acreditar que Deus não erra,
que esta característica não é dele,
mas apenas nossa,
caminhantes imperfeitos nesta rota evolutiva.

Falta-nos humildade para crer que, quando fazemos a parte que nos cabe na tarefa,
tudo acontece na hora correcta
e de forma adequada.

As dores que nos chegam e nos tocam
são oportunidades de aprendizagem e de mudança
para novo estágio de evolução.

Assim como a chuva,
que embora nos pareça inconveniente e assustadora,
em algumas ocasiões,
também os problemas são indispensáveis para a purificação
e renovação dos seres.

Por isso, quando tempestades pesarem fortemente sobre nossas cabeças,
saibamos perceber que tudo na vida passa,
assim como as chuvas, as dores, os problemas.
Tudo é fugaz e momentâneo.

Mas tudo, também, tem seu motivo e sua utilidade no nosso desenvolvimento.

*Suzete Madeira*
*(Poetisa da nova vaga moçambicana)

sexta-feira, setembro 01, 2006

Vida Fantasma

"Testa Fantasma"
(Óleo e carvão sobre tela,
Bruno Bernier, 1988)


Vida Fantasma*

Caminhando incertamente para um futuro
(Im)previsto
Promessa solene de incumprível exigência
Guardando com a vida (e a morte) a Sua bíblia,
O seu coração,
A sua versão
Testemunha suprema do mal (in)evitável

Contraria.

Apenas o respirar do cachimbo suave mantém a insolência dos dias
Das noites
Da concisa (i)mutabilidade das coisas
Impróprias
Para consumo
Esperando apenas partir
Quebrando o co(r)po agora vazio deixado para trás
Ao relento
Contam-se os cacos
Contam-se as vidas
Contam-se segredos
Contam-se verdades

E mentiras.

Suprimido por si próprio
Nada faz porque não quer
(Alguém que queira é o que realmente quer)
Mas o futuro aproxima-se
O passado persegue-te
E o presente arrebata-te!

*Orlando Gilberto de Castro*
*(jovem estudante português; os novos autores da Lusofonia; poema inicialmente colocado
aqui.)