terça-feira, outubro 30, 2007

Contos da vida real 10: A Efémera Árvore

"Imbondeiro de Angola"
(Foto de
Paulo Arroteia)

A Efémera Árvore*

Qual é a diferença que existe entre um especulador imobiliário e um tubarão?
Nenhuma, são imprevisíveis.
Tinha talvez vinte anos quando a despediram da vida. Era muito atraente, oferecia, tinha ainda muitos promissores frutos proeminentes em frente. Cheios e cheia de saúde e assim morrer tão prematuramente… os frutos saborosos com que nos deliciava e a sua sombra, a frescura terminaram no reino inglório do lixo.
Era uma árvore, uma mangueira altiva e muito orgulhosa, nunca se deitava e não se cansava de viver sempre em pé. Convivia, participava, acompanhava as nossas vidas. Fincou raízes nas traseiras de três prédios, num grande largo que a juventude utilizava para disputar campeonatos de futebol. Junto dela vivia um homem de idade avançada, numa modesta habitação, e porque a saúde lhe desistia contactou um general para a sua venda. Feito o negócio, ainda se sentia o frio das notas bancárias e já alguns militares, mais um arquitecto, e um engenheiro começam a rodear a mangueira. Com curiosidade, olham-na de cima a baixo. Depois faíscam-na como inimiga, soldados trepam-na, e a rir como a festejar grande vitória contra um inimigo poderoso, tratam de esquartejar primeiro os seus ramos mais pesados, mais volumosos. A árvore rapidamente sente o fim aproximar-se, e entre suspiros e lamentos, gritos silenciosos, como só as árvores fazem, sons que os seres humanos não ouvem, não querem ouvir.
E a árvore continua a resistir ao assédio. Heroicamente resiste a cada golpe que sem piedade lhe assestam os seus inimigos poderosos. Já estava quase careca, desnuda. Creio que se sentia muito envergonhada, da sua nudez. Restava apenas o tronco que teimosamente insistia em estar ligado à Terra Mãe, aquela que a viu nascer. E a Terra sentia-se ferida. E num ronco descomunal surgiu uma fera de metal, que lançava fumo por todos os lados, como um dragão invencível… e com uma pá de aço, mergulhou nas entranhas da Terra e retirou as raízes, o esqueleto, o pouco que restava da pobre árvore, deixando lá uma cratera, o que alegrou os militares, habituados aos despojos no campo de batalha.
Depois, entre o tilintar de copos de bebida, o general, os seus soldados, o arquitecto e o engenheiro, beberam à saúde de mais um inimigo aniquilado. A seguir veio a niveladora, nivelou a terra, apagou os vestígios da descomunal batalha. Seguiu-se outra máquina que despejou cimento e areia. Os tijolos e demais materiais já aguardavam para iniciar mais uma obra da especulação imobiliária. Passados poucos dias já ninguém se lembrava que ali existiu uma árvore, uma mangueira. No seu lugar cresceria mais uma árvore de cimento e areia.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Outubro de 2007)

Testamento

"Noiva Muíla"
(Tela de Toia Neuparth)


Testamento*

À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida,
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…
este meu rosário antigo,
oferece-o àquele amigo
que não acredita em deus…
E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha lama venha
beijar de longe os teus olhos,
vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

*Alda Lara*
*(poeta angolana; poema publicado incialmente no “ABC – Diário de Luanda” e retirado da Antologia Poética Angolana I, col. Imbondeiro, 1963)

Poema

"Rapariga Mucubal"
(Tela de Toia Neuparth)


Poema*

Eis-nos aqui no caminho
Traçado por nossa mão.
Cada braço traz o punho
e cada punho um punhal.
Bandoleiros na vida,
vida errante era o destino!
Nas costas nasceram traços
da vida dura sem pão.
Rugas dos covais da vida
cemitérios da ilusão!...
Mortos, mortos, mas com vida
quase á beira do chão.
Quase à beira do chão
rastejantes, vermes, podres!...
Pobre miséria do mundo
só o dinheiro é patrão.
Só o dinheiro é patrão
dos vermes sujos do chão
Cada verme traz um punho
com uma faca na mão.


*Alexandre Dáskalos*
*(poeta angolano (1924-1962), poema inicialmente publicado no “ABC – Diário de Angola” e transcrito na “Antologia Poética Angolana”, col. Imbondeiro, 1963)

Aspiração

"Bicicleta"
(Tela de Nadir Pessoa, daqui)

Aspiração*

Nesta flor sem fruto que aspiramos
Eu vejo coisas que ninguém descobre:
Vejo a raiz, o caule, os ramos
Vejo até o sulfato de cobre.

E vejo coisas que ninguém mais vê:
Vejo a flor a desenhar-se em fruto
E quer ela o dê ou o não dê
É esse o fim por que luto.

*Antero de Abreu*
*(poeta angolano; poema retirado da Antologia Poética Angolana I, col. Imbondeiro, 1963)

sábado, outubro 20, 2007

Verso e reverso

"Verso e reverso"
(Foto de
Goga, Junho de 2007)

Verso e reverso*

Estão comprometidos com o sangue
o verso e o reverso desta medalha:
desfaz-se em palavras
o tempo de esperar tempo melhor
faz-se com nosso fôlego e nossa força
não importa morrer
veneno que brilhou no espaço
importa abrir a raiz
a dor de uma bala atravessando o cérebro
sem mais nenhuma palavra a dizer.

*Álvaro Alves de Faria*
*(poeta brasileiro
homenageado no X Encontro de Poesia Ibero-americana, em Salamanca; poema do livro "Em Legítima Defesa"; retirado daqui)

segunda-feira, outubro 15, 2007

O Livro de Job

"Sem título"
(Tela de Gracinda Candeias, 1990; imagem
daqui)

O LIVRO DE JOB*

Conheci o Job na fazenda dele. Parecia-me homem sincero, recto e temente ao seu rei. Tinha fama de muito bondoso e afastava-se dos maldosos. Proliferou sete filhos e três filhas e cabeças de gado aos milhares, e muita gente para o servir. Costumavam radiodifundir que era o mais rico do reino. Os seus filhos ultrapassavam o tempo em grandes festas. Convidavam as suas irmãs a comerem e a beberem com eles. Job escolhia algumas cabeças de gado e enviava-as para o seu rei, como prova de gratidão, vassalagem.
Um dia o rei visitou-o para lhe agradecer as ofertas. Num repente aparece um general. O rei pergunta-lhe:
- Donde vem?
O general respondeu.
- Ando a vigiar estas terras.
Disse o rei ao general.
- Já viu o meu vassalo Job? Não há ninguém no reino que se lhe compare. Muito honesto, justo, mais que vertical e detesta as pessoas maldosas.
Respondeu o general ao rei.
- Hum! Acho que ele não faz isso em vão. O meu rei concede-lhe muito apoio. É um dos poucos vassalos protegidos. O seu gado e as suas terras não param de aumentar, graças ao rei. Ele que fique na miséria, que passe fome, vai odiar o rei e demais nobres.
Disse o rei ao general.
- Parece-me que você anda com o olho nestas terras. Sei que alguns já expropriaram algumas… chegam, instalam-se… já está tudo feito.
O general fez a saudação militar e saiu da presença do rei.
Um dia, a filharada de Job estava numa festa na casa do filho mais velho. Depois chegou um mensageiro e disse a Job:
- Os bois lavravam, as tropas do general chegaram e levaram-nos. Disseram que estavam com fome. Feriram os empregados. Só eu escapei.
Chegou outro mensageiro que disse:
- Incendiaram tudo. Os empregados morreram queimados. Só eu escapei.
Ainda outro mensageiro apareceu e disse:
- Eram pelo menos três pelotões. Roubaram tudo. Só eu escapei.
Mais um mensageiro chegou e disse:
- Estava a tua filharada numa festa em casa do filho mais velho. Como agora tudo acontece, veio um tufão que arrastou a casa e todos os que lá estavam. Ninguém ficou vivo. Só eu escapei para te contar o que se passou.
Job levantou-se muito chateado, rasgou a sua manta, e rapou o cabelo porque era moda. Atirou-se para o chão e clamou:
- O meu destino é igual ao dos outros expropriados. Trabalhamos nas nossas terras, o general chega, e rouba-nos tudo. Bendito seja o nome do rei!
Mesmo assim Job não se revoltou nem amaldiçoou o rei.
Noutro dia veio uma delegação de alto nível chefiada pelo rei. O general estava presente. Então o rei disse ao general:
- Onde tens andado? Porque não proteges os bens do meu vassalo Job?
O general respondeu:
- Estou sempre vigilante, está tudo sob controlo e não notei nada de anormal.
Disse o rei ao general:
- O vassalo Job merece a minha admiração. É a única pessoa honesta que resta no reino. Tomara que houvesse mais como ele. Confesso que os corruptos ganharam o campeonato da corrupção… e apuraram-se para o campeonato mundial. Facilmente obterão a vitória final.
O general respondeu ao rei:
- A vitória é incerta. A generalização da corrupção termina em assassinatos, ajustes de contas, até à vitória final do grande terramoto político. Ainda não sabemos como isto vai acabar.
O rei disse ao general:
- A nossa secreta informou-me que você está envolvido no roubo das terras. Tratarei disso depois. Peço-lhe que não atente contra a vida de Job.
O general baldou-se. Quando viu o luxuoso avião particular do rei desaparecer no céu, mandou alguns dos seus homens de confiança darem uma grande sova a Job, mas de maneira que não o matassem. O corpo de Job ficou macadamizado. Job apanhou uma folha de bananeira para limpar as feridas. Tudo à sua volta parecia uma chuva de cinzas. Sentou-se nos restos da madeira queimada. A sua esposa disse-lhe:
- Ainda gostas do rei? Depois do que o general dele te fez? És muito parvo!
- As mulheres não entendem nada destas coisas. Apesar de o general me roubar tudo o que tinha, devo obediência e lealdade ao rei.
- Eu é que trabalho na terra!.. o teu fanatismo é escravidão, não é lealdade! És um grande atraso de vida! Onde estão os teus amigos, em quem tanto confiavas?
- Hão-de vir... Hão-de vir!
E chegaram alguns amigos que confortaram Job. Um disse-lhe que a sua conta bancária estava em baixo. Os outros tristemente confessaram que também lhes roubaram tudo o que tinham. Que o mal era geral. Trabalhar de verdade não era possível, porque roubar é fácil. Ficaram uns dias a acalentá-lo e sentaram-se nas sobras de algumas cadeiras. Depois cansados foram-se embora. Um deles ao despedir-se reafirmou:
- O reino da fome está combalido.
Apareceram alguns grupos de esfomeados que aproveitaram as sobras. O local ficou igual a um deserto. Job bocejou, apetecia-lhe dormir. Falou para o vento cúmplice que arrastava as cinzas:
- Tantos e tantos anos de trabalho em vão. Não dá para trabalhar na terra, porque depois vem um general e fica com ela. Finge que a trabalha à espera que surja um sócio estrangeiro. Mas eles já não acreditam nisso, e a terra abandona-se. Fica para acampamento de refugiados. As trevas dominam este reino. O rei está sempre lá em cima sentado no seu trono. Raramente desce, sobe, ou sai. Adora rodear-se de pessoas, que mais parecem lâmpadas fundidas, que dão pouca luz, ou acendem de vez em quando. A minha terra contamina-se, nunca mais nela nada crescerá. Resta-me olhar para as nuvens e para os restos das árvores, que parecem fantasmas ao luar. Tantos anos em vão que trabalhei. Agora tudo ficou igual às noites escuras. Nunca mais perderei anos, meses e dias nestas coisas.
E Job sente-se como o programa de arranque, o sistema operativo corrompido que não inicia o computador.
- Ah! Não vou ficar aqui toda a vida a olhar para a noite. Ainda me sobrou um tocador de CD portátil. Escutarei umas músicas e dançarei uns bons bocados. Chorar não adianta. Lembro-me que os colonos quando fugiram, preveniram-me que não valia a pena trabalhar na terra, porque depois de estar tudo bem, apareceria alguém que ma roubaria. Não acreditei, agora dou-lhes razão. Fui e continuo muito parvo. Pedir um empréstimo bancário? Nem pensar! Só se for para importar cerveja. Os bancos não arriscam fazer empréstimos a longo prazo. Consideram que investir na agricultura não dá lucros. Porque quando chegam as chuvas as culturas ficam destruídas. Depois há que fazer novo empréstimo. O lucro tem que ser imediato, caso contrário… não deixam nada.
E Job, cheio de contentamento pela miséria oferecida, ainda crê que é um dom divino do rei do seu sol, da sua terra, da sua miserável vida, e reza para que o seu comandante real tenha longa vida. Mas o seu estômago desperta e aqui vê a verdade das verdades.
- Sinto-me muito cansado e com fome. Nem sei onde dormir… vou apanhar um bocado de capim e fazer uma casota. Uns nascem e querem tudo só para eles. Nascem infectados com a doença do dinheiro. Bom, vou ver se consigo vender alguma coisa no maior mercado do continente da fome. Ou carregar sacos às costas, ou vender água fresca para viver. Arranjar uns papelões para dormir, tenho que safar-me. O rei disse que não me abandonaria, mas já estou farto dessa conversa. Os seus conselheiros dão-lhes maus conselhos e só aparecem onde há dinheiro à vista. Os príncipes estão muito ocupados com os seus negócios, vivem num mundo distante. O reino é deles, por isso vivem no seu reino. Além disso nada mais existe. Fazem por parecer cultos, mas estão ocultos… como se não existissem. Não gostam de ser perturbados, a não ser que lhes levem um bom negócio. Eles são a lei, e nela repousam. Ninguém tem coragem de os abordar, pois o seu poder é imenso. É um reino maior que o reino. Maior que muitos reinos. Aqui não há pequenos, só grandes. E quem tenta lá entrar jamais sai. É que não existe porta das traseiras. Porque têm um cemitério particular muito mal iluminado, para que não se possam ver as inscrições das lápides. As amarguras dos miseráveis nunca são escutadas, mas os latidos dos cães escutam-nos com muita atenção.
E Job lembrou-se que o mais cansativo, o que cansa na realidade mais pura é a fome.
- Cavar, cavar de dia e de noite à procura de diamantes, que depois de encontrados ficam ocultos. As minas são propriedade real, disso ninguém duvida. Dançam, pulam, pululam de contentes porque já não há espaço nos cofres para colocar as riquezas. Para viver neste reino é necessário matar, vigarizar e roubar. São estas as leis que funcionam. Quem não as cumprir não sobrevive. Só o oculto permanece, e não se pode desvendar. Tudo é permitido para obter o nosso pão. Os milhões de esfomeados em vão suspiram ao governo dos desgovernados. Nada temem e nada receiam, porque os seus exércitos não dormem, estão sempre à espreita. Ai dos prevaricadores! Apesar disso não dormem descansados. Vivem na perturbação constante de um levante, porque uma maldita rádio e jornais democráticos atiram tudo para fora, não deixam passar nada. Acusam-nos de democratas malvados, de maldita democracia que denuncia constantemente os corruptos. É por isso que ninguém gosta dos democratas e da democracia.
O Super-ministro do rei foi em auxílio do seu vassalo, e disse a Job:
- Não sei se aguentas o que te vou dizer, mas digo-te algumas verdades. Comeste e bebeste com muitos. Emprestastes o teu dinheiro e agora não te querem saber. Só mesmo um Job!.. edificaram empresas com o teu dinheiro… ajudaste muita gente!? Pareces o Job da Bíblia. Nunca vi nem conheci um idiota como tu. E alguns ainda aparecem e levam algumas bananas que por milagre se salvaram. Quem te mandou confiar no rei? Milhões confiaram nele, e vê como estão. A morrerem à fome!.. o rei disse que tens que esperar mais trinta anos para saíres da miséria… creio que o rei depois de morto ressuscitará e virá salvar-nos uma vez mais do imperialismo internacional. Morto ou vivo nunca desiste da luta anti-imperialista.
Entretanto o Super-ministro deu parecer aos arquitectos e engenheiros que construíam um bruto condomínio nas terras, que já não eram de Job. Serviria para alegrar, para lazer da nobreza. Para passarem brutos fins-de-semana, na fuga da agitação da cidade, da barulheira e da anarquia dos nobres súbditos sem lei.
Perto, algumas cobras oposicionistas, descontentes rastejavam à procura de local mais aprazível para respirar. Sentiam-se deslocadas nas suas próprias tocas. Iam bem chateadas. O Super-ministro continua a desvendar os males do mundo ao grande idiota Job.
- A questão fundamental da vida é a grande descoberta de todos os tempos. A maldita invenção que os homens fizeram – o dinheiro –. Dá muita satisfação a quem o possui, e que nunca se satisfaz, quer sempre mais e mais. Fica obcecado… como uma ideia fixa… torna-se numa doença. A pessoa deixa de ser humana, vira uma desumanidade sem limites. É o vale-tudo. Daí não desmagnetiza o seu pensamento. No fim vem a loucura, a neurose a necessitar de urgente tratamento psiquiátrico. Provoca guerras para obter mais e mais, até à destruição do planeta… da humanidade. Provoca uma grave contradição: O dinheiro resolve muitos problemas, mas quanto mais abundante mais problemas trás. É isto a origem da maldade.
O Super-ministro vai ao Hummer, traz a caixa térmica, abre-a. Retira uma garrafa geladíssima de Dom Perignon com cinco anos de idade. Convida Job mas este recusa com a cabeça. Satisfaz-se com uma farta golada. Reconta a exercitação de Job.
- Sabes Job… o nosso reino é como um universo-ilha. Os ricos são fábricas de lixo. Os seus lares produzem-no em abundância porque consomem muito. E obrigam-se a consumir o que a sua ira produz. Nem as plantas e os animais lhes escapam, porque montanhas de resíduos lhes caiem em cima todos os dias. Quando a consciência da Natureza se revolta, chamam-lhe calamidade natural... e as vítimas são imensas… os seres humanos que escapam vivem dispersos, na fuga incerta, permanente. A Natureza sussurra os seus segredos, mas já ninguém os entende, ou finge não entender. Aparece-nos em visões à noite, e desaba em cima de nós, precisamente quando estamos no sono mais profundo. Acordamos espantados e estremecemos perante tal poder. Os espíritos vagueiam à nossa volta, poucos povos já os entendem. O vento fala-nos, previne-nos, mas os nossos olhos já nada vêem. Está tudo corrompido, somos todos corruptos!
Perto, talvez apelando aos antepassados, cantando a sua desdita, a negra-bantu demonstra, desmonta as coxas muito salientes, e os seios fartos, muito dissidentes, que equidistantes bamboleiam, falantes. O Super-ministro regozija-se com a beleza natural, espontânea da bantu.
- Job… explicar estas coisas não é nada fácil… tornámo-nos mais puros e justos que o Criador. Já não confiamos em ninguém. Nem em nós confiamos… tornámo-nos num metal cheio de ferrugem, com os alicerces a desabar a todo o momento. Resta-nos ainda o pó para respirar. Vivemos num imenso holocausto, e há felicidade nisso. Vivemos os últimos dias das tormentas tecnológicas, das promessas… que finalmente o ser humano alcançaria o bem-estar e a felicidade eternos. As desgraças atingiram tal dimensão que os meios existentes já não satisfazem a demanda. Inventámos uma sociedade onde só existe a ira e a loucura. Tentamos lançar raízes, mas as águas sobem e não as deixam viver. Chegam com tal força que despedaçam tudo o que encontram pelo caminho. E não há quem nos livre. Depois vêm os famintos… o instinto de sobrevivência que os transforma em salteadores, predadores. E da terra não vem mais trabalho, porque dela só resta pó. E sem trabalho que fará o homem? Espera que a fome chame a morte. Esta vem e anuncia a agonia. E quem se salvará? É por isso que necessitamos do nosso rei, de alguém que nos dirija. Só ele entende os nossos anseios e faz obras para nos contentar. Se a chuva é demais a culpa não é dele. Também não é culpado pela inundação dos campos. Quando isso acontecer procurem um lugar alto para se salvarem. Estendam as mãos e aguardem, que alguma coisa virá. Porque será que os ricos são ignorantes, e os pobres sempre sábios? Porque na pobreza se aprende a viver, e na riqueza se aprende a destruir. O pobre conhece as veredas da escuridão, e o rico nela anda às apalpadelas, sempre com a espada preparada para matar. O pobre vive na esperança, o rico vive no desespero. O pobre vive com medo dos castigos do nosso rei, e nós os ricos, recebemos prémios. Não dá ir na conversa das ideologias políticas, e nos aventureiros que são muitos. É por isso que ficamos sem nada. Talvez esses da ajuda da paz te arranjem um bocado de sabão, óleo, e arroz. Como o Mal está em todo o lado, eles também podem ajudar com qualquer coisa. Seja como for, nunca te desvies do Mal. Ele está no nosso coração. Vamos prolongar a vida das pessoas até às eleições. Depois podem correr como entenderem… da fome claro!
Job, ficou horas astronómicas, canónicas, a fitar o infinito cosmogónico. Job, sentiu eclipsar-se, não conseguia explicar-se o porquê do aparecimento do Homem na Terra. O porquê de tanta trama que tal criatura produz tanto drama. Job, ficou com a cabeça em pantanas, no Paleozóico, não conseguia discorrer o pântano do comportamento andróide. Conseguiu absorver o álefe das borrascas humanas, e tocou o céu.
- Os amigos são como as ondas do mar. Quando chegam abraçam-nos, quando vão… não voltam mais. São como corvos que aguardam pacientes… como as silenciosas pirâmides egípcias. No alto dos seus templos esperam pela colheita de quem plantou. Posso firmar que a história da humanidade, é a história de quadrilhas selvagens bem organizadas.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Junho de 2007)

Vento

"movimento, aite, tormenta, inmensidad, desasoguiego"
(Tela de
Judit González Barcina)

Vento*

Quando nascemos somos comunistas, mais tarde optamos, somos socialistas, finalmente damo-nos conta, somos neoliberalistas.
A essência do germinar das lápides estiradas, atiradas ao abandono. Reencontradas nas cavernosas, cavernas escusas, depois iluminadas pela alta voltagem inofensiva do sublime amor.
A história humana é o calvário, purgatório, martírio do amor da proporção divina nas listras zebrais, equilibradas entre o amar e viver Condenámo-nos à nascença a amar, mas recusamos, teimamos em odiar Não é ser, é ter alguém para confiar, divino em que acreditar Temos que apreender a dizer não, a este faz-tudo de amar clonado em vão. Evitemos que os vendedores revendam o ardor da paixão. Não podemos resumir esta contenda nos gestos augurais das vestais continentais.
As plantas ondulam porque amam o vento. Se este faltasse, o ódio reinaugurar-se-ia de verde amarelecido.
As asas do estímulo vivencial, são código genético desconhecido, que nos faz voar, perfumar, o aroma para amar. E quem isto ousar proibir, será proibido. Os sensores do amor quando activados ficam desordenados. No futuro serão bloqueados, porque perigarão os instrumentos sensíveis das naves interplanetárias. Será imaginado, recriado um longínquo planeta amoroso, para amantes eternos. Os circuitos do amor desafiam as leis e a velocidade física. Não há, não haverá máquina que calibre a sua invisível intensidade. Porém, ele esforça-se e tem mais que força, perenidade para viajar pelo infinito do Universo. Deixai que os sedentos bebam da sua água pura, para que a impureza da poluição das águas não cause pandemias, e aconteça a sua extinção. Apenas um minuto de imensidão amorosa, vale milhões de anos planetários. Para quê lutar, se estamos sempre presos nos tentáculos das areias movediças, acariciantes, desse eterno sentimento. Tudo se extingue, parece em vão, o amor não! O amor tem muitas pernas, mas quatro estão sempre presentes: duas femininas, e duas masculinas. O útero da deusa mãe aguarda o seu convidado, e os pés dos amantes movem a escala Richter.
Promete que amarás o amor, e nunca te cansarás da sua tentação. A diferença que existe entre o rico e o pobre, é que o pobre é rico de amor. E o rico vive na pobreza espiritual à procura do amor. A plenitude virá quando soarem as badaladas cardíacas, rítmicas do relógio bioquímico do nosso coração. Não haverá tormenta que nos domine, que nos separe, porque estamos acorrentados, desmaiados nesse sem sentido, perdidos nos outros sentidos.
Que sejam santificados os mártires do amor, e que nos próximos tempos um salmo planetário seja cantado na cosmologia. E dos suicidas infelizes apenas porque amaram… serão edificadas estátuas de beijos com luz estelar aos viajantes espaciais com a inscrição:
AOS INFELIZES DO AMOR TERRENO QUE APENAS AMARAM.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; conto original, Agosto2007)