O que é este Blogue?

Quando se junta uma amálgama de palavras, um conto ou um poema podem sempre emergir. A sua divulgação fará que não morram esconsos numa escura e funda gaveta. Daí que às minhas palavras quero juntar as de outros que desejem participar. Os meus trabalhos estão publicados sob o pseudónimo: "Lobitino Almeida N'gola". Nas fotos e pinturas cliquem nos nomes e acedam às fontes.

terça-feira, novembro 04, 2008

Resistência

"Sem Título"
(Foto “Tonspi;
daqui)

Resistência*

Do Negage à Portela
Pérola Quicongo à beira Tejo
Bairro da lata de Areeiro
Musseque dos espoliados em Lisboa

Negra sozinha na noite
Embrenhada no escuro dos escorraçados
Avenida abaixo, calçada arriba
Olhos tristes, paisagem do desconforto

Como quem persegue a luz
Borboleta africana, perseverante
Paciente e desesperada, luta, desarmada
Na garganta um nó
Mas, ainda assim, sorri…
Mostra alvos os olhos
E os dentes…
Da boca carnuda, belíssima…
Negra esbelta, triste
E contente
Só porque está viva
E seduz…

Que linda que ela vai
Anda prenha a negra do Congo
Veio de tão longe parir em Lisboa
Um filho da noite no musseque do Areeiro…
.
*Luís Urgais*
*(poeta português; da obra “Trinta e três poemas inteiros” cedido à Casa de Angola)

terça-feira, setembro 30, 2008

Névoas

"Quitandeiras"“
(Foto da Etnografia angolana;
daqui)

Névoas*

Vão-se os gorjeios em dias
vazios de sons.
Sobre estas calçadas
frias de granito
não há nada que seja
tempo
som
vento
cheiro bom.

Tudo flui! Tudo é nada!
Só a voz longe-longe das quitandeiras
do Lobito
ressoam ao vento-pregão
percorrendo Caponte e Compão:
-Xi fèrreraaa, mariquitaaa...
enchendo o ar da saudade
de tempo-peixe
de tempo-cheiro
condensado em novelos de cacimbo,
névoa, nada e mais nada.

Quitandeiras – vendedouras de peixe ou fruta.
Cacimbo – nevoeiro, tempo da estação seca.


*Namibiano Ferreira*
*(Poeta angolano; gentilmente cedido pelo
autor)

Quitandeira

"Mulheres com farinha de trigo"
(Uma tela a óleo, de Lívio de Morais, representando quitandeiras;
daqui)

Quitandeira*

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

*Agostinho Neto*
*(poeta e político angolano (1922-1979); retirado da obra Sagrada Esperança)

quarta-feira, agosto 27, 2008

Picada de marimbondo

"Elefante solitário"
(Foto de autor angolano desconhecido; retirada da Net;
que o marimbondo não o apoquente...)

Picada de marimbondo*

Junto da mandioqueira
perto do muro de adobe
vi surgir um marimbondo

Vinha zunindo
cazuza!
Vinha zunindo
cazuza!

Era uma tarde em Janeiro
tinha flores nas acácias
tinha abelhas nos jardins
e vento nas casuarinas,
quando vi o marimbondo
vinha voando e zunindo
vinha zunindo e voando!

Cazuza!
Marimbondo
mordeu tua filha no olho!

Cazuza!
Marimbondo
foi branco que inventou...

*Ernesto Lara Filho*
*( poeta angolano – poesia publicada na Antologia de poesia da Casa dos Estudantes do Império - Angola e S. Tomé e Príncipe; retirado daqui)

Pátria Mãe!

"Vila Bijagó, GB"
(Foto de autor desconhecido; retirada
daqui)

Pátria Mãe!*

Tu me viste no ventre
Tu me viste nascer
Crescer me viste
Ressurgir eu te vi
Ressurgir das entranhas coloniais.

Os teus filhos se revoltaram
Irrequietos, se levantaram
Levantaram-se firmes
Firmes numa certeza
Firmes na esperança de vencer.

Pátria Mãe, na árdua caminhada,
A vitória era único destino
A vitória era a Liberdade
A Liberdade é hoje.

Pátria Mãe, tu vives na Memória Nacional
Tu vives na Memória dos Mortos
Que te honraram com suas vidas
E por tua causa foram.

Foram e nunca mais voltarão
Nunca mais ouviremos suas vozes
Nunca mais ouviremos o eco de suas vozes
O eco de suas gargalhadas
Gargalhadas nos labirintos afins.

Nunca mais sentiremos bater o seu coração
Bater de esperança e coragem
Bater de alegria e do dever cumprido
Nunca mais lhes diremos, Camaradas!
Nunca mais contaremos o passado

O passado nos confins de Cubucaré
O passado no coração de Morés
O passado nas masmorras de Tite e afins
O passado nas submarinas da marinha
O passado nas ilhas das galinhas
O passado de reencontro da tua dignidade.

Nunca mais ouviremos a cadência de seus pés
Cadência de seus pés nas colinas de Boé
Nas lalas e matas de Nhacra
Nas matas e lalas de Guilege e Guidage
Nas matas históricas do chão de manjaco
Nunca mais mataremos saudades.

Mas um dever nos deixaram,
De vivificar a tua história heróica
De preservar as tuas conquistas
De defender a tua integridade moral e física
De construir a nação que Amílcar sonhou edificar
De preservar perenemente a tua dignidade.

E assim honrar o sacrifício superior - a morte
A morte dos teus melhores filhos
Que devemos honrar com a acção da cidadania
Honrar a Pátria que Cabral se entregou de corpo e alma
E assim, honrar perenemente a ti, oh Pátria Mãe!

*José Bacar*
*(heterónimo de José Carlos Cocamáro; poeta Bissau-guineense – Julho de 2005; retirado
daqui)

Descifrar a dor e o amor

"Sombras"
(Foto de Luís Costa, Agosto 2008; retirada
daqui)

Descifrar a dor e o amor*

Sei que existe o céu, e que há estrelas, nuvens e noite
Sei que há chuva, frio e calor
E que há perfume nas flores. Cores? Não sei, mas sei que há sabor
E sei que há noites, manhãs e dor
Sei que há sorrisos, desencontros, sons e silêncio
Sei até que há degraus, que você sobe, desce, para!
E conheço sua voz.
E que quando suas mãos apalpam meu corpo, sinto medo
Mas quando ouço sua voz… sinto a calmaria dos campos
Alimento minha alma de amor, tolerância e fidelidade…
Mesmo quando estou só.
E lembro que…
Quando amanhece, e o sol brinca de secar o orvalho de meu corpo,
Deito no chão macio, e sorrio, mesmo que só!
Não sei falar com as mesmas palavras que você.
Mas conheço algumas, e as vezes até decifro
E mais ainda, você conhece todas as minhas
Quando estou perto de você , tratada por você …
Meu olhar explica o que sinto no corpo e na alma.
Acho que a dor e o amor se misturam
Sinto minha alma se misturar a sua
Num misto de gratidão e alegria
Que não sei se sou gente ou bicho
Sei apenas que perto de você
Não sinto mais solidão nem dor.
.
*Lira Vargas*
*(poesia brasileira; retirado
daqui)

Durmo sem sonhar

"The Dream"
(Tela de
Henri Rousseau, 1910)

Durmo sem sonhar*

Nasci na África triste, ou triste Africana
Evito encontrar-me, fujo de mim
Durmo sem sonhar
Até os pesadelos me abandonaram
Sonho de olhos abertos e vejo milhares de naus
Multidões nas praias que me perseguem
E escondo-me no que resta da civilização

Tento suavemente sentir a sensação
Da profunda escuridão
Depois das dramáticas batalhas de cada minuto
Para não encurtar a minha vida
Nos muitos anos de guerra
Porque os desígnios da minha existência paradoxal
Nunca serão lembrados

No beiral areal, real lixeira de corpos desumanos
Sou como os palhaços, rio, faço rir
Dentro de mim estou triste
Rio para esconder a minha tristeza
Tenho o direito ancestral de ficar calada
Os dias antecedem a bruma das noites
Negra escuridão dos tempos perdidos,
jamais recuperados
Receio que tenha de partir para longe,
já que aqui não vejo ninguém por perto

Revolução de contínuos descontinuada
Na apanha da bebedeira ficam três dias a dormir.
Alguns não acordam
Era o colonialismo, a seguir vieram os descolonizadores
Depois o neocolonialismo. Que será o que se segue?
África, berço e túmulo da humanidade.

*Gil Gonçalves*
*(um português algures em Angola; retirado
daqui)