quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Conto guineense 1: O candidato

"Il Candidato"
(Tela de
Ugo Pierri, 2003)

O Candidato*

Nhu Djoca di Pilum levantou-se cedo naquela manhã de segunda feira, bem antes do sol raiar. Ia para a bicha do Ministério das Finanças para ver se conseguiria, finalmente, receber a sua pensão que há muito tardava a cair. Embora ainda estivesse fresco, com o sereno por levantar, Djoca di Pilum sentia a camisa molhada e o suor a correr-lhe pelo rosto. Não era de calor que transpirava, mas de angústia por não saber o que fazer se não conseguisse voltar a casa com algum dinheiro. Limpou a testa com o velho lenço que trazia na algibeira das calças e acelerou o passo. Bem que tinha deixado a sua pedra a marcar o lugar na noite anterior, mas algum chico esperto poderia vir tomar-lhe a vez. Enquanto caminhava em direcção à praça, Djoca procurava encontrar alternativas à eventualidade, mais que certa, de não receber a pensão nesse dia. Há mais de uma semana que lá ia esperar e regressava sempre ao fim da manhã depois de ter ouvido as desculpas do funcionário, prometendo que no dia seguinte, sem falta, seriam pagos.
Eram difíceis os tempos! A vida tornara-se impossível. Já com a mísera reforma paga todos os meses era uma ginástica aguentar o mês inteiro. Agora que nada caía era impossível aquecer as pedras do fogão todos os dias... Como fazer para alimentar a família que contava com, nada mais, nada menos, dezasseis bocas? Os donetes que Sábado, sua velha companheira dos bons e maus momentos, fazia e vendia já não davam os lucros do início. Pois, era normal que assim fosse, os clientes também sobreviviam com dificuldades. O taxi, que a muito custo comprara em eneésima mão, dera o que tinha a dar. Nem na sucata conseguira vendê-lo e agora jazia diante da porta de casa, servindo de fornecedor de peças sobressalentes para quem quisesse servir-se dele. Ainda se metera num negócio de venda de cervejas no clandô[1], mas as coisas correram-lhe mal por ter sido enrolado pelo pretenso sócio entretanto desaparecido, sem deixar traços, com o dinheiro para a compra da mercadoria no Senegal. Os tempos estavam difíceis, sim senhor! Mas não para todos! Na praça via gente que prosperava, passeando em novos carros e construindo belíssimas casas nas novas zonas urbanizadas nos arredores de Bissau. Como faziam eles, se eram todos funcionários do mesmo estado que não pagava a ninguém? Talvez fizessem negócios, pensou, mas... que negócios? E onde? Não via na cidade qualquer indício de prosperidade económica compatível com aquele luxo. O feijão tinha toucinho e ele teria que descobri-lo!
Nestas cogitações chegou ao Ministério. Já lá estavam alguns dos habituais daquela luta. Afastou a sua pedra e sentou-se no chão, deixando escapar um suspiro que demonstrava grande desânimo.
- Mais um dia de aldrabices! – disse-lhe um homem que estava sentado ao seu lado.
- É verdade, não tenho ilusões nenhumas – retorquiu Djoca, coçando a barbicha. – O pior é que não sei o que fazer se não receber hoje a minha pensão...
- E ver que esses tipos andam por aí a passear em Pajeros e roncar basofaria[2]! – completou o outro – e depois vêm dizer que não há dinheiro! Sabe uma coisa? Agora só se safa quem chega ao poleiro! Esses aí estão garantidos! Já disse ao meu filho que, se ele se quer safar, tem que criar um partido.
- Um partido? Para fazer o quê? – perguntou Djoca com espanto.
- Fazer política... ou confusão. É a mesma coisa!
- Não entendo...
- Oh homem! Quando se cria um partido, das duas uma: ou o partido ganha as eleições e o seu dono chega ao poleiro ou perde-as e o dono faz tamanha confusão que acaba por ser convidado para o poleiro!
- Hã... estou a ver... então ganha-se sempre!
- Bem, não é bem assim. É preciso puxar-se uns certos cordelinhos, dar-se um jeito aqui, outro ali e sobretudo não fazer inimizade com os próprios adversários. Há que deixar sempre uma porta aberta...
- E é preciso dinheiro para criar um partido? Paga-se imposto?
- Nada disso homem. Chamas a tua família, os teus amigos e os teus vizinhos e crias o teu partido. Depois vais lá dar o nome no tribunal, pagas os selos e fica tudo legal.
- É só isso?
- O resto é só mandar bocas!
Djoca di Pilum arregalou os olhos. Eis uma maneira de se safar de vez! Se os outros conseguiram por que ele não haveria de conseguir? Por que nunca pensara nisso? Naquele mesmo dia iria convocar os próximos para a criação de um partido! PBUP, Partido do Bairro Unido de Pilum, seria o seu nome. O mais difícil já estava feito e agora faltava apenas reunir os moradores de Pilum, os de cima e os de baixo.
Tão mergulhado nos seus projectos, Djoca nem dera conta da vinda do funcionário que mais uma vez anunciara que “amanhã sem falta” seriam pagos. Quando caiu em si, já os outros se tinham dispersado. Levantou-se e rumou com destino a Pilum, desta vez com um sorriso a bailar nos lábios enquanto já se via a subir, num Pajero, a avenida Amilcar Cabral em direcção ao palácio presidencial... Sim, seria Presidente da República, outra coisa estava excluída! O chefe é o que come primeiro e se sobrar os outros partilham os restos. É, presidente da república seria mais seguro. Isso mesmo, iria candidatar-se a presidente da república, ora nem mais. Ouvira dizer que haveria eleições presidenciais lá para o fim daquele ano. Mãos à obra a caminho da vitória, disse para consigo ao chegar ao seu bairro.
Foi fácil criar o PBUP. Todos estavam fartos daquela vida de miséria e com o Djoca na presidência ninguém iria ficar esquecido. O futuro sorria e prometia belos dias aos fervorosos militantes do PBUP. A campanha foi lançada num dia de grande festa. Não se sabe de onde saira, mas havia comida e bebida a fartar! É o prenuncio da fartura que o PBUP vai trazer ao povo desta terra, diziam uns já alegremente animados pelo calor do vinho de cajú! Nunca mais iremos para as bichas, retorquiam outros. Viva o PBUP! Viva o Presidente Djoca di Pilum! Viva!!!
O resultado das eleições foi esperado com ânsia e nervosismo pelo povo de Pilum. O seu destino estava em jogo naquele escrutínio. Tomara que Djoca ganhasse! E Djoca di Pilum ganhou mesmo! O povo inteiro o aclamou quando apareceu na varanda do palácio. O novo presidente contemplou a avenida que se deitava a seus pés tal um tapete de honra nas grandes ocasiões. Aquela fora a sua grande ocasião e ele soubera agarrá-la. Terminadas as infindas esperas à porta do Ministério para receber a pensão! Terminadas as dores de cabeça à procura de como alimentar a família! Terminadas....
- Djoca! Djoca! Acorda!
- Hã?! O que há, Sábado?
- Levanta-te, homem. Hoje é segunda feira. Tens que ir às Finanças fazer a bicha para a tua pensão!

Glosário:
[1] Comércio clandestino
[2]
Vangloriar-se

*Filomena Embaló*
*(Guineense nascida em Angola e filha de pais cabo-verdianos; retirado
daqui)

Assim arde a matéria

"Sem nome"
(Tela de Lorenzo Macias – exposição na galeria Geraldes da Silva)


Assim arde a matéria*

Assim arde a matéria:
tua alma ungida
por um resto de mel aquecido
no bosque do meu coração.

Eu seguro as tuas coxas
e bebo em teu rio-oiro
essa beleza azul da água
smorzando

a virilha inédita
da minha terra natal.
penetro nela como um furacão
amortecida pela seca estação.

Assim arde a matéria
na sanga quebrada da paixão
teus lábios feridos
de ternas melodias.

*José Luís Mendonça*
*(poeta angolano; poema e desenho do livro “Logarítimos da alma, poemas de aMar”)

Um Poema

"Sem nome"
(Tela de Marian Cuenca – exposição na galeria Geraldes da Silva)


Um Poema*

Pode ser de amor
de fome ou de ardor
de uma mulher amada
e de um homem amado

De um Povo violentado
pelos invasores da nossa Terra
das árvores da vida sem dar fruto
para o Povo Angolano amargurado

Que não mamou leite ao nascer
por o peito da mãe ter secado ao viver
não havia nestum, cerelac nem farinha doce
e comeu farinha de mandioca ou de milho

tanto se ama nesta vida
quando se palmilha com ardor
até encontrarmos os nosso amor
que deixamos na despedida

No Lobito dividido pelos Angolanos
tanto amor e vidas se perdem entre irmãos
quando vamos encontrar a Paz! meu Deus?
para pudermos encontrar a Vida da nossa razão!

*José Navarro*
*(poeta português que começou no Lobito; do livro “A luz estava acesa de vermelho – Um transmontano em Angola”, 2006, pág. 156)

Eu sou

"La chioma della sirena"
(tela de
Ugo Pierri, 2003)

Eu sou*

A guerra sou eu
e os que sendo soldados
desertaram…

A violência sou eu
e os que sendo violentos
amansaram…

A injustiça sou eu
e os que sendo cegos
enxergaram…

A cobiça sou eu
e os que cobiçando
se ofertaram…

A fome sou eu
e os que sendo famintos
comeram…

O poder sou eu
e os que sendo poderosos
enfraqueceram…

A prepotência sou eu
e os que sendo prepotentes
se humilharam…

A vida sou eu
e os que estando vivos
viveram…

A morte sou eu
e os que estando mortos
ressuscitaram…

*Amélia Veiga*
*(Poetisa angolana nascida em Portugal; do livro “As Lágrimas da Memória”, ed. Chá de Caxinda, 2006)

Anto

"Tarocchi - Il Matto"
(Tela de
Ugo Pierri, 1987)

Anto*

Caprichos de lilás, febres esguias,
Enlevos de Ópio – Íris-abandono…
Saudades de luar, timbre de Outono,
Cristal de essências langues, fugidias…

O pajem débil das ternuras de cetim,
O friorento das carícias magoadas,
O príncipe das Ilhas transtornadas –
Senhor feudal das Torres de marfim…

*Mário de Sá Carneiro*
*(poeta português (1890-1916); do livro “Poemas Escolhidos”, ed.Celpa/Público)

Há um homem

"Sem nome"
(Tela de Lorenzo Macias – exposição na galeria Geraldes da Silva)


Há um homem*

1.Há um homem em cada
noite, que se multiplica em suadas mãos
para esmerar um corpo amado.

2.Há um homem
que se dissolve em suspiros
e queda fatigado nos teus braços
a cada noite, mulher!

3. E no oficio árduo das madrugadas
nasce um homem, um homem novo,
um homem de mil e uma auroras
assim como se plagiasse o resplandecer
dos teus olhos, mulher,
para cravar os astros de prazer.

4. Há um homem, mulher,
um homem que sou,
um homem que nasço,
somente quando te amo.
.
*Eusébio Sanjane*
*(Nova poesia moçambicana (n.1988); retirado
daqui)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Calumba que um dia

"Esboço de Paisagem Africana"
(Tela de
Rodrigo Diniz)
.
Calumba que um dia*


Aonde andará a moeda de pés de pó de talco
que um dia perdi na minha infância
os meus aviões de papel loucamente enfeitiçados
sobrevoando o teu riso libelinha
os chingufos de carne vibrando de poentes
aves ocultas no fogo de uma asa sem vento

Aonde andará a bicicleta de gelo a buganvília
que um dia beijou
minha alma de papel ao sol dos teus olhos
calumba que um dia


*José Luís Mendonça*
*(poeta angolano; poema do livro “Logarítimos da alma, poemas de aMar”

Encontro

"Encontro de amigos"
(Tela de
Rodrigo Diniz)


Encontro*

Abriu-se porta
a gente entrou
e, lá dentro
alguém gritou!

“estamos contigo
somos teus amigos
mesmo na dor
se preciso for
que não existe
quando há fervor”

Vamos prá frente!
ninguém contestou
e nos rostos ávidos
alegria estampou.

Ficámos calados
irmãos
camaradas
amigos encontrados.

Na rua o cerco.


*José Navarro*
*(poeta português que começou no Lobito; do livro “A luz estava acesa de vermelho – Um transmontano em Angola”, 2006)