terça-feira, janeiro 31, 2006

Vórtice?

"Vortice"
(Tela de Dana)
.
Vórtice?*

Já lhe chamaram Vulcão!
Mas para ela, a vida é…
uma lava incandescente
na escarpada agrura
do tempo amargo
qual remoinho de maré
que a idade relembra
e o evo perdura.
Mas é também,
um reviver,
de uma passagem
contínua
e continuada,
assídua
e constante
do redemoinhar
que a espiral
e a animação
temporal
fazem parecer
um Furacão.
Mas,
quem sois,
Antão?
Ninguém,
Já romeiro o dizia.
Susete,
Somente…
Como um turbilhão
na doce maresia.

*Lobitino Almeida N’gola*
*(Lisboa, 17.01.2006
)

Além da Terra, Além do Céu

(Entre o Céu e a Terra)
.
Além da Terra, Além do Céu*

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

*Carlos Drummond de Andrade*
*(poeta, contista e cronista brasileiro (1902-1987))

Retrato do Poeta

"Retrato de Fernando Pessoa"
.
Retrato do Poeta*

Porém
se por alguém não sou ninguém
se canto e digo
flor
canção
amigo
a mim o devo
a mim e a mais quem
floriu
nasceu
cresceu
lutou comigo.
Homem que vive só
não vive bem
morto que morra só
é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo
com todos
ficar vivo
nado-morto da morte.
É isso
é isso
uma espécie de forno
de bigorna
de corno imorredouro que
transforma a infusão
metal do compromisso
forjar o conteúdo pela forma
marrar até morrer
e dar por isso..
*José Carlos Ary dos Santos*
*(poeta português)

Simbiose

“Garça real”
(Acrílico sobre tela de Fátima Seehagen)
.
Simbiose*
.
nos cabelos submersos
da manhã
caminha a garça
por ventura ou
por desgraça
neles embaraça os pés
de tal modo entrelaçadas
seguem sem voos
garça e manhã
até que o sol se ponha
até que a noite se faça
e seja a manhã não-manhã
e seja inda garça a garça

*Márcia Maia*
*(poetisa brasileira, retirado daqui)

segunda-feira, janeiro 30, 2006

O vermelho das acácias na paisagem

(Benguela, cidade das acácias rubras - ©foto Casa de Angola)
.
O vermelho das acácias na paisagem*

cai ao chão a mais ínfima aurora

há-de vesti-me de cor rubra
a matéria que tinge o céu e me deslumbra

este assalto da aurora será o meu enxoval meu dote de menina
agora que sei o mistério e continuo donzela
tu que pões o vermelho das acácias na paisagem
estranho amor te foi cobrindo amarga toranja
doce de papaia regressa
de cada vez
mais jovem
a semente
chama

arde em lábios audaciosos

neste acontecer saboroso
eles são afeitos
à incandescente terra a crescer num dom de mansidão

em fundo laranja canta o palato assim aceso enquanto
um rosário de contas pretas me escorre dos dedos
devagarinho para o chão
*Ana Mafalda Leite*
*(Poetisa e ensaísta, nascida portuguesa, em Moçambique se fez mulher; poema da obra poética, recentemente lançada, Livro das Encantações)

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O Mar

"El monje frente al mar"
.
O mar*
.
Ai o mar
que nos dilata sonhos e nos sufoca desejos!
- Ai a cinta do mar
que nos detém ímpetos
ao nosso arrebatamento
e insinua
horizontes para lá
do nosso isolamento!
(Convite da viagem apetecida
que se não faz!)
- Ai o cântico
estranho
so Atlântico,
que se não cala em nós!
Talvez um dia
inesperado remoinho de águas
passe
borbulhante,
envolvente,
alguma onda mais alta
se levante...
Talvez um dia...
- Quem sabe!...
Depois
na senda dos tempos
continuará
a marcha dos séculos
...E outra lenda
virá...

*Jorge Barbosa*
*(poeta caboverdiano (1902-1971), um dos promotores do Movimento "Claridade")

segunda-feira, janeiro 23, 2006

As Mãos

"Hands of humanity"
(Óleo de Antoine de Villiers, 1998)
.
As Mãos*

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

*Manuel Alegre*
*(poeta e político português: da obra “A Praça da Canção”)

Surucucu

"A maior e mais bela surucucu que conheço"
.
Surucucu*
.
Fui mordido sem remédio,
quem me mordeu foste tu...
E agora morro de tédio,
veneno surucucu.
.
Foi numa triste cubata,
mais longe do que a distência,
mais longe do que a saudade,
que é tempo morto que mata.
.
Nunca mais posso esquecer
a tua boca sem fala,
quando um leão, que era rei,
assustava e complicava
os murmúrios da sanzala.
.
Uma palmeira
à luz da Lua, parecia que rezava
naquele mundo profano!...
.
Fui mordido... - Foste tu! -
Nunca mais posso esquecer-te,
- veneno surucucu.

*Tomaz Vieira da Cruz*
*(poeta nascido português mas que assumiu Angola como sua onde foi enterrado a seu pedido - poesia retirada da compilação "Quissange", edição Lello, 1971)

Poema das coisas belas

"Fenda da Tundavala"
(Uma belíssima paisagem do Lubango, retirada daqui)
.
Poema das coisas belas*

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas porque será belo o pôr de Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?
*António Gedeão*
*(poeta português; in: “6 poemas de António Gedeão”, edição JSC-Público, 1995)

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Conto da vida real 1: "Bissau 1998 - a mulher abandonada"

Uma mulher bosquímano
(um povo africano em busca do respeito perdido)


Bissau, 1998 - a mulher abandonada*

Tenho sentimentos contraditórios relativamente à história que vou contar. Vacilo entre o pudor e a vaidade mas, como já perceberam, vou contar…
Por razões óbvias, vou alterar o nome da principal protagonista. Chamo-lhe Nininha…
Tinha vinte e poucos, talvez até menos, e uma barriga avantajada de 7 meses de gravidez. Tinha sido abandonada por todos. Primeiro, pelo marido português que fugiu da guerra, logo aos primeiros tiros, evacuado no “Ponta de Sagres”, um navio cargueiro que, debaixo de fogo, tirou alguns milhares de pessoas de Bissau. Depois, foi abandonada pelos vizinhos que não quiseram arriscar a fuga com o contrapeso de uma grávida que já não podia correr. Acabou por ficar quase só, na cidade deserta. No bairro onde morava, Chão de Papel, havia meia dúzia de casas habitadas. Alguns homens tinham ficado, para evitar pilhagens. Mas eram poucos.
Nininha descobriu-nos e passou a ser visita assídua. Comia da nossa comida, pagava com risos. De noite, ia para casa.
Ao fim de dois meses, abandonámos Bissau, rendidos por outra equipa de reportagem. Nunca mais soube dela. Ainda durante a guerra, voltei a Bissau mais três vezes, mas nunca mais a vi, ninguém soube dar notícias dela. Havia cada vez menos gente na cidade.
No final da guerra, a Marta Jorge (jornalista da RTP, sedeada em Bissau) contou-me o resto da história…
Andava ela em reportagem, retratando a difícil situação dos habitantes de Bissau que tinham ficado sem morada, porque as suas casas tinham sido destruídas, quando encontrou uma negra jovem que vivia na rua com um filho bebé. O miúdo era muito claro, quase branco. A mulher contou que tinha ficado sem casa, queimada por um obus que lhe rebentou com o telhado. A repórter perguntou-lhe, depois, pelo pai da criança. Respondeu que era um português que tinha fugido. A repórter perguntou, então, como se chamava o bebé. Ela respondeu… "Carlos Narciso". A Marta teve um arrepio. Passou-lhe pela cabeça que eu seria o pai do miúdo… mas, logo de seguida, a mulher disse-lhe que, quando o bebé tinha nascido, lhe tinha dado o nome da única pessoa que a tinha ajudado durante aquele período.
Gosto desta história, até porque não termina aqui.
Mais tarde, Nininha conheceu um médico francês, voluntário dos Médecins Sans Frontiéres. Apaixonaram-se. Nininha vive, hoje, em Bordéus, com o marido e o filho.
Espero que seja feliz.


*Carlos Narciso*
*(jornalista, retirado
daqui, com a devida vénia e autorização do autor)

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Prelúdio

"Mãe Negra"
(tela de N'Tangu – pintor angoano)
...
Prelúdio*
Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…
.
*Alda Lara*
*(poetisa angolana um pouco esquecida; uma feliz ideia, vinda daqui; do livro Poemas, 1966)

terça-feira, janeiro 17, 2006

Ser é escrever-me

“Bodegón”
(Óleo de Ruben Prieto, 2005)

Ser é escrever-me *

Quando, em noites de solidão,
peregrinamos
o prazer da criação,
eis que as palavras
voltam a ser nascente,
águas vivas
da memória que resiste.
As palavras necessárias
que, às vezes, ganham sentido,
quando, sem procurar porquê,
a poesia acontecer.
Retomo a velha pena
de escrever-me
que recatara,
no tombo dos feitos
nunca findos.
Lavo, de seu aparo dourado,
restos secos,
de tinta sofrida,
e logo volta a fluidez
navegante
dos poemas por fazer.
A proa da caneta
riscando fina
a breve rugosidade do papel,
os manuscritos que resguardo
nas gavetas vivas do passado,
e os livros, companheiros,
que, lendo e relendo,
vou recriando
em madrugadas de espera.
*José Adelino Maltez*
*(Do livro de poesias Sphera, Spera, Sperança, Livro I "Das palavras imperfeitas")

domingo, janeiro 15, 2006

Corrupção

"Corruption"
(desenho de Jess Lucid)

Corrupção*

Então rapazes.
Que se está a fazer?
Será que ninguém ouviu
Ou alguém não quer dizer?
Saibam que estamos mal
Tamos num inferno de corrupção
Portanto, tenham compaixão de mim
Porque isso não me levará a lado nenhum
Por saber que sou, embora, um cábula
Isso que estou a dizer não é boato
Veio duma triste notícia
Tou a ler mesmo agora
Tamos na lista dos mais corruptos
Por isso choro...
Choro de muita vergonha
Creio que já chegou a hora
De irmos à luta
Porque o mal já está em cima da mesa
Não vamos mais tapar o sol com a peneira
Olhando com desdém
Como que nada acontecesse
E que tudo está bem.
Tamos mal…
Depois de ver isso fiquei fraco
Tou sem valor que nem um molho kassassado
Saí para rua e quando alguém soube quem era
Disse logo que sou corrupto
Caí para o chão. Não tive nada que falar
Porque ele tinha provas
Leu a notícia que está a girar
Com o destaque de uma Angola
Que por ela já não me orgulho
Mas me envergonho
Por favor ajudem-me
Encontrem a solução desse grande problema
Porque já não me aguento com tanta vergonha
E por isso sinto medo de sair para fora de casa
Não sei o que dizer dessa maca
Mas seria bom que atássemos todos
Todos que estão com o sim da corrupção
Mandem os tais amarrados…para a casa das leis
Usem a cadeia como centro de correcção
Para acabarmos com a corrupção
Lancem a aposta ao ar
Trabalhe quem quer…
Mas que seja para bem de todos
E não para tirar seus dividendos
Mandem tudo e todos
Apresentarem contas no fim do dia
Responsabilizem os maus actos
Para que não caiamos em ebulição
Porque a panela já está a ferver
Vamos nos queimar…
A corrupção já não é segredo
Ela já chegou até no outro lado
Por isso a temperatura aumenta
E tudo a qualquer momento rebenta
Tá tudo mal
Tamos entre a espada e a parede
Levante meu irmão
Traga-nos novas para o coração
Grite comigo por favor
Diga não à corrupção
Não tenho mais palavras
Tou tão aflito que já não me aguento
Acabem com isso
Vamos à transparência
Usem todos métodos legais
E assim seremos bem vistos
Por todo mundo
Até aqueles que nos têm como inimigos
Já poderemos nos dar o luxo
Porque já não seremos lixo
Pois a corrupção já não viverá em nós
Se isso não mudar
Juro que vou morrer…
Vou morrer de vergonha.
Porque onde passo
Só me apontam o dedo;
Porque a nossa banda mal cheira
No perfume da corrupção…
Para mim, vale mais perfumar papão
Que me envergonhar por essa maka;
Ou juntos, unidos e bem empenhados
Anulemo-los, então.
*Luis Miguel*
*(Estudante angolano em Holanda,
18/10/05)

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Conto angolano 3: Tito – o construtor de Toyotas

"criança com um brinquedo de arame" (retirado daqui)

Tito – o construtor de Toyotas*
Já lá vão trinta e tal anos. As chamadas Águas Quentes do Alto Hama, em Angola, uma espécie rudimentar mas pura de termas, eram um dos locais habituais onde, por o horizonte saber a infinito, eu passava os fins de semana e, nos derradeiros tempos, as semanas do fim.

Das pessoas que frequentavam o local pouco recordo, para além de alguns amigos sonhadores que, no meio de umas churrascadas e de umas tantas grades de cucas, davam largas à imaginação.

No entanto, um morador nas redondezas é para mim sinónimo daque local. Não existem Águas Quentes sem ele e, certamente para mim, sem ele aquele local nunca seria o mesmo.

Era o Tito. Um puto albino que estava sempre lá, calmo e sereno como antevendo que não valia a pena chatices. Sorria, falava pouco mas tinha um olhar tão vago e penetrante como o pôr do sol.

Junto ao asfalto da estrada para Luanda, o Tito montava o seu negócio. Com carolos de milho, cápsulas de cerveja e uns pedaços de arame, construia os automóveis que vendia a todos quantos amassem verdadeiras obras primas do artesanato.

Apesar de serem diversos os modelos, uns mais desportivos outros mais de serviço, o Tito só fabricava uma marca: Toyota. Nenhuma outra conseguiu cativar o Tito, aquele puto albino de olhar tão vago e penetrante como o pôr do sol.

Comprei-lhe vários modelos e, não fora o canibalismo daqueles que nunca tiveram a honra de conhecer o Tito, ainda hoje os poderia ter. Penso que esses Toyotas do Tito estarão algures no fundo mar junto a Moçamedes, local onde foram guardados para a eternidade os caixotes daqueles cujo único erro que cometeram foi amarem Angola.

No entanto, como hoje aqui comprovo, o Tito, aquele puto albino de olhar tão vago e penetrante como o pôr do sol, deixou no meu coração um dos seus últimos Toyotas.

Obrigado Tito.

*Orlando Castro*
*(Jornalista Angolano-português; conto inédito)

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Negro-Rubra

"Flamingos"
poderiam estar algures na Caponte

Negro-rubra*

Que águas desassossegadas
se tragam
e se degustam.
Sejam as do Bengo e as do Catumbela,
do Cunene ou do Cubango,
do Cuanza ou as do Cassai,
do Congo, Cuito ou do Cuango
não há como fugir delas.
São prenhes,
adulantes
e macumbeiras.
Venham a singular gazela
e o soberbo elefante;
jornadeiam-nas a esbelta gaivina,
e o aristocrático leão,
mais a palanca galharda
e o dongo pescador.
Sejam rubra a determinação,
ornitológica dourada, a vontade
ou negra, a forma;
não há cuidados,
não há, dissimulação;
só transparências,
e naturalidade;
só mar,
terra,
ar,
só um povo:
Angola.
*Lobitino Almeida N’gola
Lisboa, 2 de Outubro de 2005

Memória do Huambo

"Meninos do Huambo"
(Tela de Fernando Campos (pintor angolano - retirada daqui) )

MEMÓRIA DO HUAMBO*

Quantas guerras sofreste
E resignada sempre suportaste?

Quantas vezes foste metralhada?
Quantas bombas, morteiros,
Sobre ti caíram, Huambo?

Afinal, morreste? ... finaste?
E onde está o teu povo,
A tua humilde e nobre gente?

Onde estão os meninos das tuas escolas?
E os nossos amigos,
Onde estão enterrados?
Nos escombros das casas, nos seus quintais?

Ai! ... Huambo! ... Huambo! ...
Repetidas vezes bombardeada, destruida,
E quantas e quantas vilipendeada! ...
Terás custado milhares de homens, mulheres e crianças!

Valeu a pena?
Afinal, a guerra constroi a paz?
Das cinzas, nova cidade renasce?

Valerá a pena
Fazer ressurgir o sonho sonhado de tanta gente,
Continuando a alimentar as velas da "GRANDE ESPERANÇA"
E do chão regado pelço sangue das crianças, das mulheres,
De todos os HOMENS que tombaram,
Ver novamente os milharais, as gaiobeiras e pintangueiras
Crescer?

Enfim, ver a VIDA renascer?...

*José Carlos Pacheco Alves*
*05.03.02 (retirado daqui)

domingo, janeiro 08, 2006

Conto angolano 2: Zeca, o paralítico do Golungo

"Criança angolana brincando"
(©foto de Tonspi (fotógrafo angolano) retirada daqui)

Zeca o paralítico do Golungo*
Era uma hora de correr lento. Começavam os frequentadores a sair para jantar.
As mesas iam ficando vazias. Descia, então, um silêncio morno.
Àquela hora ficávamos no café como em família. Então, o paralítico, que andara arrastando-se por aqui e por ali, ganhando deste, recolhendo indiferenças e apanhando cápsulas das garrafas de cerveja para seus brinquedos, aproximava-se da nossa mesa.
Poliomielite: as pernas eram uns caniços retorcidos, que custava encarar. Ele, magrinho, vinha até nós, receoso, mansinho. Sujo-sujo, de se arrastar pelo chão, pelas ruas e pelos passeios. Receoso, porque a recepção era um enigma: por vezes corríamos com ele. Quando me dói recordá-lo! Abria, então, os olhitos em surpresa, em espanto interrogativo. Mas vinha sempre, ao fim, a rastejar, as mãos disformes em calosidades, a arrastar-se por aqui e por ali.
Éramos do bairro. Aquela hora ele vinha como a um porto final; nunca antes. E não o espectáculo da miséria, a roupita num fio, os ossos esculpidos sob a pele macilenta, que nos vinha lembrar a nossa tarde perdulária entre comidas e bebidas. Para nós, a sua presença não tinha tal poder de libelo acusatório. É que conhecíamos. Mãe. Ela, a velhinha, explorava o aleijadinho. Viria dentro em pouco, para lhe extorquir as moedas.
E se não se apresentasse o que queria e quanto esperava, havia de surrar o pobrezinho, ave implume e sem protecção nas patorras infrenes da porcaz megera. Pois a marafona - sem nunca uma meiguice para o filho - iria logo para a taberna, a dissolver as moedas em vinho, na companhia de vis amigalhaços. Era para ela, e não para o Zeca, só para ela, a nossa ira.
Não sei por quê era o Zeca que manifestávamos, a contra-senso. O filho não poderia compreender. Nem nós. Como se quiséssemos, através da nossa raiva, fazer com que o filhote verde e doentinho se voltasse contra a mãe. Ou o reconhecimento da impotência de qualquer rebeldia.
Porém, as nossas explosões de mau génio alternavam com a piedade, com a compreensão, e ele por ali ficava, comia e bebia até. Dinheiro não, que não lhe dávamos. Ele escolhia, dos tremoços, da jinguba, das batatas fritas, azeitonas, bolos, e até pão com carne. Dizia o Alcino, bochechudo, de boca atulhada, incansavelmente a mastigar, lábios em labor constante por baixo de um nariz vermelhusco, queimado pelo sol, caldeirão lá da Mutamba:
- Come, Zeca, come à vontade, que este não bebe a carcaça velha.
E ele, sempre tristinho, tímido, a ficar por ali como entre amigos.
Pobrezinho! Que infância seria a sua? Que sonhos, que fantasias passariam por aquela cabeça?
Em nós a piedade, uma certa compaixão que nada resolvia e se misturava sempre com ódio, a uma náusea, pela bruxa desavergonhada. E o Zeca a pedir um dos guardanapos de papel para embrulhar o pão e um cibito de queijo e a explicar que era "para a mãezinha".
O Alcino a tornar sarcásticos:
- mãezinha, hein? Não levas nada para aquela borrachona.
Dá-lhe trigo roxo, um bom raticidazinho, que a leve o diabo mais velho das "profundíssimas infernais"! Come, palerma! Come, jeriquinho! Mãezinha; não faltava mais nada agora? Não querem lá ver! Algum dia te deu banho?
-É sim para a minha mãezinha...
e punha nos olhos uma chamazita de convicção inabalável, na coragem do único arremedo de amor que conhecia.
O Alcino a perder a cabeça, num vozeirão, que saísse dali, se não quebrava-lhe os olhos "que até ficaria direito dos caniços".
E ele a ir-se, qual aranhiço, e, talvez, a concluir que, na realidade, os matulões são muito complicados!
Ao lembrar-me daqueles olhos em que apontavam lágrimas, enterneço-me. E lamento, atormento-me por te dado tão pouco e por não ter dado quanto o infeliz nos pedia de carinho e amor, de amizade e camaradagem.

*António Jacinto*
*(Conto retirado do “Angola Acontece”)

Guerrilheiro


Guerrilheiro *
.
Parece embarcar ao vento de todas as barcas
No redemoinho de todos os furacões
Encarna a loucura dizem
Mas não
Cria os homens e fecunda as consciências
Na loucura consciente das rajadas criadoras
Encarna a loucura dizem
Mas não
Encarna o homem.

*Nicolau Spencer*
*(Angolano, nascido em Cabinda, morto na guerra; poema retirado da Antologia Temática da Poesia Africana 2, compilada por Mário de Andrade)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Menino pobre da minha Angola

"Menino pobre de Luanda, com o seu papagaio de papel",
(desenho de Neves e Sousa)

MENINO POBRE DA MINHA ANGOLA*

Serão sempre os caminhos
que a vida nos dá,
sem ódios nem rancores;
São diferentes os ninhos
a enxada e a pá,
mas iguais os amores.

Eu sapatos lindos calço
alheio ao caminho feio
e ao sofrimento diário;
Tu triste e descalço
à custa do conforto alheio
que é o teu calvário.

Lá vens alegre sorrindo
com teu poema de criança
esculpido no teu olhar,
Tu vens, eu vou indo
sem destino nem esperança
e à espera do que chegar.

- Bom dia senhor.
Dizes-me olhando o horizonte,
alegre no teu querer;
Não. Não sou o teu senhor
nem sequer a fonte
do teu viver.

Tu andas descalço e imundo,
sorrindo mas sofrendo
os crimes do presente;
És a vítima deste mundo
onde se vive mas se vai morrendo,
que é ser mas não é gente.

Tu dormes no chão
e não sabes das tuas irmãs
que te dizem servir na cidade;
queres comer mas não tens pão,
queres, talvez, viver sem amanhãs
nesta vida que não deixa saudade.

Mas descansa
que a vida ainda terá calor
e tu virás a ser feliz,
na vida também se alcança
a justiça que será amor,
e a paz que será juiz.

E não penses nunca em mim
que mereço apenas morrer
carcomido pela mesquinha dor;
Olha com amor o teu jardim,
vê aquela flor que vai nascer
e não me chames senhor.

*Orlando Castro*
*(Jornalista angolano-português)

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Abril de Brados Mil


ABRIL de BRADOS MIL *
(1974 / 2005 - 25 de Abril)


Abril em Lisboa, brados Mil
Cravos, Flores, floriram
Rostos sorriram, mas…

Áfricas ensanguentadas, gemiam
Angola, Guiné e Moçambique
Maquela do Zombo, Madina do Boé e Mueda
Irmanadas, nas granadas rebentadas
Metralhadoras G3 e canhões estremeciam
Kalashenikoves – metralhadoras, e minas bailarinas
Bailando no baile da morte anunciada
Viúvas e órfãos de soldados vivos
De luto antecipado vestidos
Soldados mancebos, outros,
Dormindo com a morte, a fiel amante.

África em Guerra
Soldados portugueses, longe do Norte
Africanos guerrilheiros, a Sul, nas suas Terras

Abril de brados Mil e
Em Lisboa, não choveram balas nem obuses
Choveram flores emancipadas
Emancipando as armas e
os barões não assinalados
Passaram ainda além do Chiado e dos Algarves
Ao largo, no Tejo,
A Armada, seu fado aguardava

Em África o luso soldado, sua amada, chorava
Em Portugal o Povo desesperava
Contra os canhões marcharam, marcharam
Cravos de liberdade e de brados mil, armados

A 25 de Abril, 1900 e 74,
O Dia ficou mais Dia
E a Noite menos noite
Raiou o Sol da esperança…
Esperança da mulher ser mais mulher,
Da criança mais criança,
Do homem mais homem,
…E do Amor, mais Amor,
e, sobretudo, falar sem Temor
Apesar de esquecida ficar, Timor!!

*João Craveirinha*, 05.04.2005
* Poeta, contista e artista plástico moçambicano (Poema lido pelo autor na Suécia em Abril 2005 a convite da Associação Portuguesa de Estocolmo por ocasião da efeméride do 25 de Abril naquele País Nórdico)

terça-feira, janeiro 03, 2006

O Enigma

"Mãe negra, o filho e o pássaro mensageiro"
aguarela de Lívio de Morais,
para a capa do livro Moçambique Novo, O Enigma.

O Enigma*

Sou negro
para os brancos
e branco
para os negros,
mas sou mestiço!

E mesmo como mestiço
sou um paradoxo
um enigma!

Não sei se sou
um mestiço negro ou um mestiço branco
se sou mais negro
ou mais branco.
Sei somente
que sou um mestiço
um mestiço de negro
e branco
um mestiço de corpo inteiro
uma adição de negro e branco.
.
*Delmar Maia Gonçalves*
*(poeta moçambicano; poema retirado da obra "Moçambique Novo, O Enigma", 2005)

Do pó, voltaremos...

"Etéreo"
(foto de Tonspi)

Do pó, voltaremos… *

Na vida existe altos e baixos
Todos nós devemos saber isso
Sobretudo quando estamos no topo
Lugar onde todos se esquecem de tudo
Pensando que por aí a vida acaba
Como um pode ser pobre
Esse mesmo pobre pode ser rico
E o rico acabar por ser pobre
E ainda um pobre bem podre
Por isso quando fores rico
Não te esqueças dessas coisas nunca
Não subjugue ninguém
Pensando que a vida estará sempre a seu favor
Lembre-se que aquele que o maltratas
Amanhã ainda poderá ser seu chefe
E tu seres obrigado a bater a pala.
Não importa que seja seu menor
Ou alguém com pouco valor.
Se assim fizeres
Lembre que por frente vem algo
Que te vai doer, doer e doer muito mais
Do que a dor que ele sentiu em seu coração
Trate todos como irmão
Para que quando tudo te cair da mão
Não tenhas vergonha de voltar pa trás
Recomeçando uma vida
Em que tudo te sai pela culatra.
Ria sempre com todos
Abrace seu irmão
Mesmo que ele seja um ngadiama
Dê a ele sempre o pouco que tens
Sem repontar
Nem tão pouco fazer publicidade
Encare a vida com muita seriedade
Vivendo isso como uma pura realidade
Saiba que a riqueza é como um bom molho
Depois da garganta já não tem valor
Porque perde já o seu sabor
Com a riqueza o assunto é o mesmo
Quando se fecha o olho
Tudo se torna saudade
Isso é verdade.
O fim do mundo (a morte)
Não é coisa para com ela brincar
Ela não respeita ricos e pobres
Também com ela não se vive em corrupção
Porque se assim fosse
Todos os pobres já seriam mortos
Enquanto que para os ricos
Era só abrir os cofres
Para sacar os guitos
Para corromper uma morte.
Felizmente, ela não deixa-se por isso levar
Anda à nossa espera
Sobretudo aqueles esquecidos
Que pensam a vida como uma pêra
Esquecendo-se de tudo um pouco
Por serem donos dos cachos
Não faça isso, mano
Saiba que quando chegar a hora
Nada poderemos pendurar algo
Mas sim, iremos de mãos a abanar
E por isso muita gente fica a chorar.
Não despreze ninguém
Olhe todos como irmãos
Do mesmo sangue
Embora tenhamos diferentes
Raízes
Estenda a mão a quem tem fome
E não a feche para alguém que tenha sede.
Lembre sempre que ser rico não é tudo
Por isso não és o melhor
Se calhar, vais a caminho do pior
Por só pensares em contas no banco
Esquecendo o pobre ao lado
Esquecendo-se também que a morte leva tudo
Sendo assim, melhor é nos unirmos
Todos juntos como irmãos
Sem olhar quem é rico ou pobre
Para que tenhamos um amor forte
Que todas as riquezas do mundo
Um amor sem dor…
Termos uma condigna reputação
Para poder competir com a morte
Assim ficará bem bonito
Todos nós viveremos sem gemidos
E a vida será uma delícia
Mesmo vivendo anos sem uma carícia
Como aquela, na hora dos mujimbos
Este é o melhor caminho a seguir
Porque se pensarmos que somos ricos e está tudo feito
Tamos enganados
Mesmo morrendo e termos a campa com os melhores mosaicos
O nome é sempre o mesmo.
Morto
Aqui não se dirá em mortos ricos
Será apenas difundo
Que acaba depois por kibuzu
Portanto, tenha atenção
Porque o tempo continua a sumir
Quando estiveres num mbongue grande
Acarretando muito peso
Não olhe os cunangas desempregados
Com grande desprezo
Procure ser a alegria deles
Porque amanhã quando desceres
Serás colega deles
Passando assim a te envergonhares pelo olhar simples
Mesmo que alguém nada diga
Mas sim apenas quando te olharem
Vás baixar a cara por vergonha
E a pior solução
Será ir mesmo fumar cangonha
Para esquecer as malambas da vida
Fique tranquilo
Aqui não há trabalho pesado
A melhor solução
É ter cautelas em tudo que fazes
Sem fomentar calos
Para deixar tudo em pratos limpos
E teres amanhã um socorro garantido
E não andares com mãos à cabeça
Acompanhado de choros.
Porque assim vão te rir aos molhos…
*Luis Miguel*
*(Estudante angolano em Holanda, 12/10/2005)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Conto tradicional angolano 1

Os dois caçadores e o leão
(Vimbundos de Caluquembe)

«Eteke limue akongo avali va ka yeva. Va ipa ombambi. Noke va ñualekelã longuli. Umue hati kukuavo: «lia ombambi ame ndi pekela pokati». Ukuavo hati: «Nda tua endele vatatu nda o pekela pokati, puãi tu vavali lika, o pekela ndati pokati?» Ukuavo wa kopa uti unene yu wa pekela pokati kuti lukongo ukuavo. Osimbu ukongo wavali wa lia ombambi onguli yeya yu ya lia ukongo ukuavo. Ukuavo ombambi wa yi lia. Eci kua ca wa enda kimbo. Vo pulísa vati: «ukuene wo sia pi?» Eye hati: «ndo sia momo wa yonguile okupekela pokati. Onguli yo kuata».«Pokuyuvuila ovitangi ka ci telã okulinga tuti: «ndi linga ndeci nda panga!» Ci sukila vo okuyevelela ovisimilo via va kuavo loku tala nda he ci tava ocili okulinga eci tua panga!»

«Dois caçadores foram à caça. Mataram um bambi. Depois encontraram um leão. Um dos caçadores disse: «come o bambi, enquanto eu durmo entre os dois!» O outro respondeu-lhe: «se fossemos três, tu podias dormir «entre dois», mas não somos senão dois, como podes dormir «entre dois?» O primeiro pegou num tronco de árvore que ele estendeu no chão e dormiu entre este tronco e o seu companheiro. Enquanto este último estava comendo a seu bambi, veio o leão e devorou o que estava a dormir perto do tronco. O outro caçador que não tinha sido comido foi-se para a sua aldeia ao nascer do sol. Quando lhe perguntaram: «mas onde está o teu companheiro?» Ele respondeu: «ele quis absolutamente dormir «entre dois», e o leão comeu-o».
Conclusão: «para evitar as dificuldades e triunfar na vida, é preciso saber adaptar-se às circunstâncias, aceitar as recomendações dos outros e não desejar, a todo o custo, o impossível».

In: sítio da Casa de Angola, 2005

Não São Flores

(Imbondeiro de Angola, retirado de aqui)

NÃO SÃO FLORES*

Não há flor que cante
toda a dor que sinto,
não há fantoche falante
que diga que minto.

É a verdade do nosso sorriso
e as lágrimas do nosso olhar
que ao longe diviso
irem encher o mar.

As flores não são flores
e os cravos não são de sol,
nesta vida só há dores
e flores murchas sem escol.

Na sombra da minha sepultura
sinto que não minto, mas sinto
a morte que nos beija e cura
a ferida que por aqui pinto.

Não são flores de verde pinho
nem sequer cravos encarnados,
são os espinhos do meu caminho
e as cicatrizes de filhos sacrificados.
*Orlando Castro*
*(Jornalista angolano-português)

Um Rio

(Rio Cunene)
UM RIO*

Eis que nasce a criança,
gerada em noite de inverno.
O progenitor, um céu nebuloso
a terra, a mãe extremosa.
Rompe-se a bolsa;
e eis que rola,
serpenteia,
doce,
silenciosamente
pelas agruras da encosta da vida.
Cresce,
alarga-se,
varre,
sulca.
Para ela não há entulhos,
nem prisões ou grilhetas.
É criança !
traquina,
cresce,
corre;
vai crescendo
vai alargando.
Serena, torna-se adulta,
não vê perigos,
mas vai brigando.
Não é arredia,
mas vai-se afastando,
alagando,
quem
à volta dela vive.
Sulca,
corre,
desliza.
E eis que a criança,
tão traquina ela era,
adulta,
responsável,
se torna.
Desaguando
na multidão,
azul ou verde,
no meio de uma alva bruma.
Repousa,
descansa no remanso
de um cristalino,
e vivo mar;
em breve,
um belo dia,
num verão,
quente,
muito quente,
em fina gotas
ao céu,
vai tornar.
*Lobitino Almeida N'gola*
*Lisboa, Novembro de 1984